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29 de maio de 2020
Transtorno de Pânico: O que realmente é?

A ansiedade é uma emoção, e como tal, ela não representa necessariamente algo ruim, mas um sinal de acontecimento futuro e nosso organismo percebe isso. Quando ansiosos, podemos sentir um frio na barriga, o coração mais acelerado, as mãos suadas e nosso corpo mais agitado de forma geral.
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É importante que ressaltar que a ansiedade se torna um problema quando:
• A pessoa não consegue desempenhar suas atividades normalmente (trabalho, estudo, lazer) por medo de que algo aconteça.
• A pessoa relata estar em sofrimento intenso e constante e que não consegue melhorar sozinha.
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Quando acentuada, a ansiedade desencadeia pensamentos e reações em nosso corpo que nos dá a sensação de perda de controle sobre nós mesmos. Nesse momento é possível que estejamos diante de um ataque de pânico, quadro que dever ser observado de forma recorrente para ser caracterizado como Transtorno de Pânico.
Ele surge, na maioria dos casos, sem a percepção do sujeito e de forma súbita. Há um aumento de pensamentos catastróficos e sensações corpóreas tão fortes a ponto de se pensar que não há como escapar e um sentimento de morte iminente.
Associado ao ataque e suas sensações, pode ainda haver presença de Agorafobia que se caracteriza pelo medo de locais onde o sujeito tenha de ir sozinho(a) ou que possa haver aglomeração de pessoas, dificultando a saída caso a pessoa necessite. Os sintomas são bastante prejudiciais pois limitam de forma significativa a vida social de modo geral, visto que essa pessoa passa a evitar sair para trabalhar, estudar e se relacionar de forma geral (Kaplan et al., 1997; Rangé & Mussoi, 2007).
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Dentre os sentimentos e sensações durante o ataque de pânico, temos (APA, 2013):
• Palpitações, coração acelerado, taquicardia.
• Sudorese.
• Tremores ou abalos.
• Sensações de falta de ar ou sufocamento.
• Sensações de asfixia.
• Dor ou desconforto torácico.
• Náusea ou desconforto abdominal.
• Sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio.
• Calafrios ou ondas de calor.
• Parestesias (anestesia ou sensações de formigamento).
• Desrealização (sensações de irrealidade) ou despersonalização (sensação de estar distanciado
• de si mesmo).

Acompanhados a eles, alguns pensamentos se acentuam (Rangé & Borba, 2010):
• Desmaiar;
• Perder o controle;
• Confundir-se;
• Ter um ataque cardíaco;
• Morrer;
• Ficar preso em algum lugar;
• Causar uma cena embaraçosa;
• Enlouquecer;
• Não conseguir chegar em casa ou a qualquer outro “lugar seguro”.

É importante entender que as crises são manejáveis, mas é preciso também identificar o que está causando a ansiedade acentuada, pois só assim as intervenções serão mais efetivas.
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Ciclo do pânico – Quando nossa ansiedade passa a exercer controle sobre nós
As sensações e as lembranças geradas por um ataque de pânico são tão intensas que, para quem já passou por um, pode facilmente se lembrar o que sentiu naquele momento.
O medo de sentir tudo isso de novo é um dos vários gatilhos que por si só passam a evocar um novo ataque e um ciclo se instaura.
Um ataque é desencadeado por inúmeros acontecimentos que muitas vezes não nos damos conta. Para uma pessoa ansiosa que já o experimentou, a possibilidade de voltar a sentir as sensações desencadeia reações emocionais e comportamentais, tal estágio chama-se ANSIEDADE ANTECIPATÓRIA.
** Essa ansiedade se caracteriza pelos pensamentos: “se eu sair terei outro ataque”; “se eu entrar naquele local e não puder sair, terei outro ataque”; “se eu voltar a me sentir daquela forma, não conseguirei me controlar”.
** E por reações de medo ao sentir que seu corpo está reagindo como já reagiu em outro ataque: palpitações; suor; tremores; sensações de falta de ar, náusea, sensação de morte, etc.
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O ATAQUE DE PÂNICO será o segundo estágio desse ciclo, onde as reações corpóreas ficam mais fortes e precisamos sair do lugar onde estamos ou carecemos de algum modo parar de sentir como nos sentimos.
Quando saímos do local, procuramos um hospital por achar que estamos diante de um ataque do coração ou nos anestesiamos de alguma forma, nosso corpo parece voltar ao estado “normal” e instala-se o último estágio a “FUGA E ALÍVIO” que nos dá a certeza de que se não tivéssemos feito algo para parar aquilo, não conseguiríamos nos controlar.
O problema no ciclo é que a todo momento precisaremos tentar nos controlar para não ter um novo ataque, o que só o fortalecerá e reforçará a crença de que a fuga é única opção.
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“Ciclo do Pânico” – Como romper?
A ansiedade é um fenômeno complexo, não podemos amenizá-la sem saber o que a está causando e intervir nessa causa. Nesse sentido, é necessária uma reflexão sobre o que nos deixa ansiosos e como reagimos diante disso.
• Evito ou fujo de situações que envolvem avaliação ou crítica sobre meu desempenho?
• Evito ou fujo de locais onde posso ser observado?
• Evito ou fujo de pessoas que fazem perguntas sobre mim?
• Evito ou fujo de locais onde posso não conseguir sair facilmente?
• Evito ou fujo de situações onde preciso enfrentar meus medos?
• Evito ou fujo de locais onde tenho de me expor?
• Evito ou fujo de situações que possam me afastar de pessoas próximas?
Ou ainda…
• Evito ou fujo dos meus próprios pensamentos e sensações?
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As sensações advindas da ansiedade e do pânico não são agradáveis, mas elas escondem o motivo pelo qual estamos sofrendo. Por isso, permanecer em contato com algumas dessas experiências pode fazer parte da melhora e faz parte de um processo de autoconhecimento.
Se a pessoa percebe que está enjoada e com certa dificuldade para respirar antes de ir para uma entrevista de emprego e pensa “Não posso sentir isso agora” ou “Tenho que controlar todos meus sentimentos e pensamentos”, esses pensamentos por si só desencadeiam em seu corpo mais ansiedade, visto que não é possível evitar algumas sensações em nossa vida, principalmente em situações que geram certo nervosismo.
Por outro lado, se analisamos melhor a situação e ponderarmos o motivo de nossa ansiedade podemos agir de forma de diferente “Estou passando por uma situação nova, é normal que eu me sinta assim”. Permitir que as sensações existam, não significa que elas irão aumentar e a pessoa não poderá conseguirá conviver com isso. No entanto, em alguns casos, pode ser que a precisemos de ajuda para enfrentar, é aí que a psicoterapia desempenha um importante papel.
Não é fácil entrar em contato com nossos medos, principalmente quando nem sabemos nomeá-los, por isso, um processo psicoterapêutico pode ser necessário na identificação do que nos faz mal e o que podemos fazer com isso.
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Analise as situações que lhe causam ansiedade, prossiga tentando compreender se pode ou não as enfrentar sozinho(a), caso consiga estipule pequenos passos que envolvam enfrentamento, caso não, procure ajuda de um profissional.
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Referências:
American Psychiatry Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders – DSM-5. 5th.ed. Washington: American Psychiatric Association, 2013.

Kaplan, H.I.; Sadock, B.J. & Grebb, J. A. Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Tradução: Dayse Batista. 7ª. Edição. Porto Alegre: Artmed, 1997.

Rangé, B. & Mussoi, H. de S. Transtorno de Pânico com Agorafobia. In: Angelotti, Gildo. Terapia Cognitivo-Comportamental para os Transtornos de Ansiedade. (pp. 13-48) São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

Rangé, B. & Borba, A. Vencendo o pânico – Terapia integrativa para quem sofre e para quem trata o transtorno de pânico e a agorafobia. Rio de Janeiro: Cognitiva, 2010.

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Autora:
Thais Alves Silva | Psicóloga CRP 09/13835
Sou Psicóloga pela Universidade Paulista (UNIP) e pós graduanda em Terapias Comportamentais Contextuais pelo IGAC. Possuo experiência na organização e desenvolvimento de rodas de conversa, palestras e Orientação Profissional com adolescentes e atuo na clínica dentro da perspectiva da Analítico Comportamental.

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