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25 de fevereiro de 2016
Socorro! Fui diagnosticado com uma síndrome que não existe

O título deste texto é para chamar atenção a um fenômeno cada vez mais atual na área da saúde mental (o da diagnose de pseudopatologias), seja na psiquiatria ou psicologia, que é a expressão de dois processos que andam em simbiose: a patologização de sujeitos sadios e a medicalização da vida.

Em um texto anterior, eu havia escrito sobre a inexistência de uma tal de “Síndrome do Pensamento Acelerado” (Rodrigues dos Santos, 2016), uma falsa doença inventada por um médico e escritor brasileiro chamado Augusto Cury (você pode ver o texto clicando aqui), onde demonstrei uma série de questões contextuais que mostram a nulidade desta ideia. Pois bem, mas como já dizia a minha avó que “uma mentira contada várias vezes acaba se tornando uma verdade”, tenho visto com séria preocupação a possibilidade de tal “síndrome” entrar em um CID destes Aída da vida. Mas como isso seria possível?

Simples, basta você criar uma informação que não está baseada em pesquisa, trabalhá-la com um bom marketing, difundi-la e, através disso ganhar a aceitação popular. O caso é tão sério, que mostra como alguns psicólogos brasileiros não têm atentando para a seriedade de se fazer pesquisas e diagnósticos em saúde mental, alguns inclusive utilizando tal conceito em seus consultórios.[1]

Vamos a alguns fatos: primeiramente, não existem pesquisas científicas nacionais ou internacionais que apontam nenhum tipo de dado, estatística, estudo de caso, teoria, fragmento de ideia que apresenta qualquer coisa sobre “Síndrome do Pensamento Acelerado”. Todas as bases de dados pesquisadas até o dia de hoje (25 de Fevereiro de 2016) não apresentaram nenhum resultado para pesquisas dessa tal “doença”: Pepsic, Scielo, BVS Psi, Banco de Teses e Dissertações da CAPES, PsychInfo, são exemplos destas bases onde não consta nada sobre o tema. E para algo ser considerado uma “doença”, precisa ter validade científica, ou seja, ser uma real descoberta baseada em um procedimento sistematizado metodologicamente e amparado por uma base epistemológica e ontológica, além de ser revisado por pares em congressos científicos e através de artigos (o Sr. Cury não parece ter feito nada disso).

Em segundo lugar, não é porque uma informação está sendo veiculada na sociedade que ela é “confiável” – lembro-me de um caso que recentemente teve destaque na mídia (Globo, 2016) e que vale de ilustração para este texto: dois advogados de São Paulo estavam preocupados porque seus estagiários estavam deixando de usar livros jurídicos para pesquisar na internet sobre temas de importância, sem se questionar sobre a qualidade e validade dos dados que estes copiavam, sendo que por isso, os chefes decidiram fazer uma pegadinha em seus subordinados inventando uma página de um jurista chamado “Carlos Bandeirense Mirandópolis” para confundi-los. A página contava que este era um grande pesquisador e professor, que havia sido exilado na ditadura, dado aula em Paris e ainda havia sido amigo de Chico Buarque e que era criador de uma grande teoria. A página foi tão bem feita que em pouco menos de 5 anos, o personagem inventado se tornou tema de Monografia de Graduação, tema de documentário e de decisão jurídica do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro… Mas ele não passava de um personagem que nunca existiu na realidade!!!

Coisas como estas mostram, por exemplo, que não é porque uma informação está disponível que ela é verídica ou que seja de qualidade, ainda mais com o advento da internet e com a facilidade de publicação de livros de autoajuda, contos de fadas e para colorir. Como também dizia a minha avó “o papel aceita tudo”.

Outra coisa que deve ser também ressaltada é o fato de que não é porque uma informação também circula em meios acadêmicos que ela deve ser “acatada” sem crítica: Earpp e Trafimow (2015) mostra um interessante caso em que um proeminente pesquisador holandês simplesmente inventou dados de várias pesquisas forjando resultados conforme seus interesses – neste caso, ele foi descoberto por seus próprios alunos, graças a um descuido. E este é só um dos possíveis casos.

Outros casos também são bastante possíveis, onde pode-se “criar” doentes para atender a interesses do lucro de grandes indústrias farmacêuticas: sobre isso Moysés e Collares (2010) mostram que até mesmo “doenças”  já tão bem “aceitas” pela comunidade científica possuem um embasamento teórico e empírico muito fraco, como nos casos da dislexia e TDAH. Estas autoras aponta, por exemplo, que um dos estudos mais citados e respeitados que embasa a possibilidade de existência de dislexia foi um trabalho produzido há mais de 40 anos que estudou ao todo CINCO (!!!) PESSOAS, com idades entre 12 e 30 anos, “sem jamais explicitar como foi feito o diagnóstico” (p. 85). Ora, isso é um absurdo (estatístico, metodológico, moral, social e histórico)!

Não estou duvidando da existência de questões comportamentais, biológicas e psicossociais que coloquem a vida dos sujeitos em sofrimento, mas estou afirmando que nos últimos dias temos aumentado sobremodo a nossa criatividade em inventar “doenças” justamente por nossa incapacidade de lidar com as moléstias que nós mesmos criamos por um estilo de vida sem regras.

Ora, como é chique dizer-se “portador de uma doença de quem pensa rápido demais” ou “ter um transtorno do pensamento acelerado”… em um mundo tão carente como temos hoje, até mesmo autoafirmação negativa é reforçadora! Além de ser muito cômodo para nós mesmos nos isentarmos da responsabilidade dos males que nós mesmos criamos, pois na medida em que dizemos “é doença” deixamos de lado o relacional e naturalizamos processos sociais. Desta forma o “adoecimento” nada mais é do que uma das formas de expressão do estilo de vida em que aprendemos e fomos nos desenvolvendo.

Oras, quem não é ansioso no mundo de hoje? Somos ensinados a ser assim! Mas se você olhar para a sociedade oriental, em comunidades muito tradicionais, em comparação conosco, ver-se-á que tal problema de ansiedade ocorre, provavelmente, com muito menor frequência do que conosco.

Mas enfim, o que quero dizer é que com a quantidade de informação que temos hoje, nós, estudantes e profissionais da área de saúde mental devemos ter o cuidado de não rotularmos nossos sujeito de uma forma que este se reconheça nele como uma sentença determinadora de seu comportamento, pois quando rotulamos uma pessoa nada mais estamos fazendo do que colando nele algo que é muito difícil de se livrar sozinho: impressões sociais que se materializam no biológico inclusive.

Por isso é necessário o poder de crítica: muita leitura e o entendimento de como funciona a lógica das ciências, a lógica da pesquisa, a lógica da articulação de ideias através de operações formais para não cair em um engodo muito bem embalado com lacinhos vermelhos, mas com conteúdo mortífero.

 

Referências

Earpp, B. D., & Trafimow, D. (2015). Replication, falsification, and the crisis of confidence in social psychology. Frontier in Psychology [Online], 6.

Moysés, M. A. A., & Collares, C. A. L. (2010). Dislexia e TDAH: uma análise a partir da ciência médica. In CRP-SP, & GIQE (Orgs.). Medicalização de crianças e adolescentes: conflitos silenciados pela redução de questões sociais a doenças de indivíduos (pp. 71-110). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Globo (2016). Após reportagem do G1, perfil de jurista fictício na Wikipédia é apagado. Disponível em 25 de Fevereiro de 2016 no site: http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/02/apos-reportagem-do-g1-perfil-de-jurista-ficticio-na-wikipedia-e-apagado.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=g1

Rodrigues dos Santos, M. (2016). Não existe síndrome do pensamento acelerado. Disponível em 25 de Fevereiro de 2016 no site: http://www.redegoianadepsicologia.com/nao-existe-sindrome-do-pensamento-acelerado/

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Imagem: Extraída do Google Imagens

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