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6 de fevereiro de 2018
Se descobrindo adulto

A representação que cada um de nós temos de nós mesmos é reflexo de três partes que nos configuram ao longo de nossas vidas, sendo eles o campo psicológico, o corporal e o social. Estes três campos são coexistentes e não podem ser concebidos separadamente. No entanto, em determinadas fases da vida, o desenvolvimento de algum campo pode predominar sobre os demais fazendo com que os outros evoluam de forma mais lenta. Na infância, por exemplo, a criança logo passa a ter suas primeiras experiências sociais, em seguida aparecem os sinais significativos das mudanças corporais entre os adolescentes e, por fim, o acentuado desenvolvimento psíquico na fase adulta.

Dentre estas fases de mudanças apresentadas, voltaremos o nosso olhar para os “jovens adultos”, uma vez que esta fase de maior amadurecimento psíquico acontece devido à condição de seus papeis e responsabilidades sociais. Ocorre que durante este período as exigências sociais passam a ter mais peso, e essa percepção de maior dependência com relação a trabalho, estudos, relacionamentos e questões financeiras, passam de um planejamento de futuro para fazer parte da realidade. A metamorfose de “jovem” para “adulto” acontece por uma linha tênue, com poucas instruções de como fazê-lo.

Apesar das queixas serem diversas e provenientes da subjetividade de cada indivíduo, nota-se que em sua grande maioria, as demandas se relacionam com a falta de equilíbrio, resultante de excessos ou faltas, mediante situações, emoções ou comportamentos. Os impactos psicológicos resultantes destas mudanças e imposições sociais, podem ser resumidos em diferentes níveis de ansiedade, medos, sentimento de solidão e incapacidade, grande dificuldade para lidar com frustrações e desesperança sobre uma possível resolução. E assim, a crise do “tornar-se adulto” implica em insegurança sobre suas ações e pouca maturidade emocional para viver esta nova etapa por completo.

Todos nós temos um mecanismo de autorregulação, em que o organismo realiza trocas com o ambiente a fim de atingir seu equilíbrio psíquico e social e satisfazer suas necessidades mediante a falta de algo. Sendo assim, esta condição pode ser positiva, quando o sujeito for de encontro ao que pode suprir sua necessidade, ou será negativa se o mesmo se afastar do objeto que a satisfaça. Portanto, se esta busca for distorcida e afastada do que é real, o sentimento de inadequação continuará presente independente de outros desejos terem sido satisfeitos.

Nesses moldes do mundo moderno a nossa capacidade de “pôr-se em contato” com nossa própria realidade e subjetividade passa a ser cada vez mais difícil, uma vez que inúmeras alternativas são apresentadas. Passamos então a confundir desejos com necessidades, e interesses externos passam a exercer maior influência do que nossas necessidades genuínas, impedindo que a pessoa se coloque em contato com sua autêntica vivência.

Neste sentido, longe de propor uma solução alternativa para tornar-se adulto, a psicoterapia atua como uma aliada do sujeito nesta incessante busca pelo equilíbrio. Através do autoconhecimento é possível conceber uma nova visão frente as dificuldades, criar novas possibilidades e auxiliar o indivíduo a dar-se conta de si mesmo, com responsabilidade e energia para viver suas próprias concepções de acordo com seu próprio tempo. Como um projeto inacabado, as mudanças internas passam a acontecer e aos poucos o indivíduo passa a se descobrir um adulto saudável em seu propósito.

 

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