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23 de janeiro de 2019
Saúde Mental na Universidade: um diálogo em busca da compreensão

Logo quando somos apresentados ao mundo, uma série de normas e regras nos são impostas. Trabalhamos como formigas em prol do sucesso e de uma satisfação consumista. Aprendemos que alguns sentimentos são inadequados socialmente e por isso devemos esquecê-los e dançar como a banda toca, ou seja, simplesmente seguir o baile.

Dentro das salas e laboratórios universitários, somos levados a nos desafiar a todo instante. Nos outdoores a propaganda silenciosa esgoela em nossa cabeça: “Quer ser um vencedor? Então aguente firme e prossiga”. Livros recheiam as estantes das livrarias com títulos e manuais generalistas de como conseguir obter o sucesso, esquecer o amor não correspondido, ganhar dinheiro em apenas alguns passos e uma série megalomaníaca de vade-mécum da vida.

Sabe-se que a saúde mental é um tema que percorre entre várias especificidades, mas que não se distanciam umas das outras, incluindo o corpo, a psiquê e o social. Dentro das universidades o assunto que aos poucos vem ganhando espaço nos debates acadêmicos é a qualidade de vida e da saúde mental dos discentes e também dos docentes.

Considerando todas as complexidades do aluno é importante se atentar nos recursos cognitivos e emocionais que este apresenta, pois influencia em como ele se adaptará no ambiente acadêmico. Diáz e Gómez (2007) afirmam que quando não há condições e normas adequadas que possam permitir o desenvolvimento de socialização saudável entre alunos, professores, pais e familiares, o ambiente pode ser estressante.

Estudantes do ensino superior têm apresentado cada vez mais sintomatologia e comportamentos de stress, ansiedade, perturbações do humor, do sono, alimentares, abuso de substâncias psicoativas e automutilação. (Carvalho et al., 2013; Royal College of Psychiatrics, 2011; ACHA, 2012, 2014;Gress-Smith, Roubinov, Andreotti, Compas, & Luecken, 2015).

A desvantagem econômica e a exclusão social são dados importantes na compreensão da qualidade de vida dos indivíduos da academia. Não se pode isolá-los. É de suma relevância olhar todo o contexto e não enquadrar o fenômeno apenas em queixas e demandas que se resumem na patologia e soluções farmacológicas. É necessário ultrapassar as barreiras individualistas e olhar para o social e identificar a parcela deste na formação, na propriedade e na qualidade da saúde mental.

A Universidade pode se apresentar como um fator de proteção, acolhimento e desenvolvimento como também pode se mostrar insensível aos problemas sociais, de renovação cultural e transformação social. Venturi e Goulart (2016) reforçam a Universidade como um lugar privilegiado capaz de desenvolver a comunidade, por meio da participação nas experiências coletivas.

Em síntese, para abordar o tema da saúde mental no âmbito acadêmico primeiro é preciso entender qual será o ponto de partida que se dará essa compreensão. É preciso olhar para a universidade como um todo, considerar as questões sintomatológicas dos indivíduos e suas possíveis causas; além de incluir o meio social e percebê-lo como um dos determinantes na conceituação e construção da saúde mental.

 

Referências bibliográficas:

 

Carvalho, A., Peixoto, B., Saraiva, C., Sampaio, D., Amaro, F., & Santos, J. Plano Nacional de Prevenção do Suicídio 2013/2017. Direção Geral da Saúde Alto Comissariado da Saúde. Lisboa, 2013.

Díaz, E. S., & Gómez, D. A. (2007). Una aproximación psicosocial al estrés escolar. Educación y educadores, 10(2),11-22.

Gress-Smith, J. L., Roubinov, D. S., Andreotti, C., Compas, B. E., & Luecken, L. J.  Prevalence, severity and risk factors for depressive symptoms and insomnia in college undergraduates. Stress and Health: Journal of the International Society for the Investigation of Stress, 31(1), 63–70, 2015.

Nogueira, M. J. C. Saúde Mental dos Estudantes do Ensino Superior: Fatores Protetores e Fatores de Vulnerabilidade. Universidade de Lisboa. 2017.

Royal College of Psychiatrists. Mental Health of Students in Higher Education. College Report CR116. September, 2011. London.

Venturi,E., Goulart, M. S. B. Universidade, Solidão e Saúde Mental. Revista de extensão da UFMG, v. 4, n. 2, p.94-115, Jul/Dez, 2016.

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