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16 de outubro de 2018
Relacionamentos saudáveis: pertencer sem possuir

Uma das necessidades básicas de um ser humano de acordo com Maslow é o pertencimento.  O ser humano busca por pertencer a uma comunidade, grupo social, família, etc. Este pertencimento é geralmente baseado na semelhança de comportamento do grupo em questão, ou seja, se temos afinidades que vão de conceitos morais até preferências de lazer. E pertencer a uma relação conjugal também leva-se em conta estas semelhanças de desejos, idéias e interesses.

Alguns casais encontram dentro destas semelhanças a vontade de serem exclusivos um do outro, afetivamente e sexualmente. Para estes casais, ditos monogâmicos, a relação flui melhor sabendo que o parceiro não se relaciona com outras pessoas. Este comportamento do casal é pautado em um acordo, uma “norma de funcionamento da relação” que condiciona o pertencer ou não a relação.

O amor recíproco não deve ser fundado em qualidades quaisquer, mas em desejos ou interesses que a própria pessoa considera decisivos para sua autocompreensão/ autossiginificação (Axel Honneth).

Por outro lado existem casais que se organizam de uma maneira diferente, e uma dessas maneiras é o dito “relacionamentos abertos”, em que os parceiros são permitidos se envolver fisicamente (em alguns casos emocionalmente também, depende do acordo) com outras pessoas sem que isso seja considerado uma traição. E este é o momento em que alguns vão se perguntar “mas como este casal permanece vinculado? Como se sentem seguros na relação?” E este é o momento de desconstruir o conceito de que exclusividade sexual é sinônimo de amor.

Pertencer a um relacionamento exige que o vínculo estabelecido vá muito além da exclusividade sexual, e por isso é preciso que a comunicação do casal flua, para que ambos consigam expressar seus desejos, seus medos, expectativas, e assim encontrar um consenso do que irá funcionar. Não existe um tipo de relação que funciona, existe o que funciona para aquele casal em específico, pois cada relação tem uma estrutura singular.

 “O amor é o encontro de duas liberdades e que, portanto, era algo extremante difícil de conseguir” Sartre (cit. in Posadas, 2001, p.23)

Para que seja consolidado o amor em uma relação saudável é preciso que o casal se abra para fazer ajustes e adaptações constantes, abrindo mão da relação de “domínio e submissão” tão valorizada pela sociedade atual para incorporar a ideia de que o amor é liberdade. Para isso exige-se maturidade emocional para conseguir compreender os desejos do outro e estabelecer limites, levando em conta que a liberdade de um termina no limite do outro.

O que quero dizer é que, é possível ajustar e reconfigurar uma relação se levarmos em consideração o que é importante para a outra pessoa. Isso não significa que todo casal deve “abrir a relação” no sentido sexual, mas que é importante se abrir para que o outro possa ser ele mesmo dentro dessa relação.

Pertencer a um relacionamento não implica em ser dono do outro. Poderíamos dizer que “viver um verdadeiro amor não significa trazer a pessoa para embarcar em suas asas, mas encontrar alguém que voe livremente na mesma direção”.

Como psicóloga clínica recebo muitos casos de pessoas que amam mas sentem-se sufocadas pelo parceiro, porque este parceiro tão amado permanece tentando colocá-la dentro de uma redoma com regras que não fazem sentido ao parceiro. Ou seja, parceiros que tentam possuir o outro, tratando-o como propriedade, decidindo com quem este deve se relacionar, aonde deve trabalhar, que tipo de roupa usar, proibindo-o de manifestar seus verdadeiros sentimentos e pensamentos.

“A natureza humana é constituída de uma busca constante pelo sentido da vida, uma busca que se caracteriza pela liberdade diante de toda e qualquer circunstância. O aprisionamento deixa o ser humano enfermo, ao passo que o amor verdadeiro, o amor livre, faz bem para a saúde.”

Será, então, que não deveríamos todos nos aderir ao relacionamento aberto? Aberto para se reconfigurar. Aberto para perceber as necessidades do outro. Aberto para pertencer sem precisar possuir. Talvez esta seja a chave para que os relacionamentos, de todos os tipos independente da regra sexual, durem.

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