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11 de maio de 2017
Por que é necessário falar sobre gênero e sexualidade em pleno século XXI?

Antes de iniciar essa discussão, quero deixar claro que o intuito não é impor, mas, sobretudo promover em cada um de nós uma reflexão em relação a atitudes muitas delas até preconceituosas para com o outro. O objetivo maior é trazer ao centro do debate a relevância de falar sobre gênero e sexualidade, visto o seu atual desdobramento na sociedade contemporânea.

Neste sentido, faz-se necessário conceituar SEXO, GÊNERO E SEXUALIDADE, como meio de facilitar a discussão em questão. Linda Nicholson (2000), descreve gênero como aquele que é usado à oposição a sexo, para descrever o que é socialmente construído, em oposição o que é biologicamente dado. Pensando como referência a personalidade, não ao corpo. De modo que, gênero e sexo são distintos, sendo gênero aquilo que é construído socialmente e, sexo sendo o biológico.

Para a Psicóloga Cintia Favero (2015), sexualidade é uma característica geral experimentada por todo o ser humano e não necessita de relação exacerbada com o sexo, uma vez que se define pela busca de prazeres, sendo estes não apenas os explicitamente sexuais. A própria Psicanálise Freudiana como vertente da Psicologia, por sua vez avalia a existência de sexualidade na criança desde seu nascimento. Propõe a passagem por fases (oral, anal, fálica) que contribuem e/ou definem a constituição da sexualidade adulta que virá a desenvolver-se posteriormente.

Pouco se sabe sobre a temática e, o senso comum tem tomado conta das discussões. Hoje, o que se sabe é que o dualismo heterossexual/homossexual não é capaz de explicar em uma única fundamentação sobre as formas de desejo humanas. O mais provável até então sobre a definição sexual, é que ela se dê tanto pela interação entre fatores biológicos (predisposição genética, níveis hormonais) quanto a fatores ambientais (experiências ao longo da vida); porém, não existe certeza de nada. Em uma publicação feita pela Associação Americana de Psicologia, esta vem afirmar que por enquanto não foram feitas descobertas que concluem a determinação da sexualidade.

Mas, por que alguns comportamentos hoje em dia são aceitos e outros não? Ao recorrermos à história da humanidade, ainda na Grécia Antiga, perceber-se-á que os povos em geral mantinham relações com ambos os sexos. Para tanto, na Idade Média, essa configuração começa a mudar, tornando algo coercitivo para àqueles que emitissem comportamentos contrários da norma socialmente definida; chegavam a ser jogados na fogueira. O que mudou para os dias de hoje? Por mais que não existem chamas de fogo como meio coercitivo, o sofrimento traz por si só essa coerção, quando assume um papel crucial na vida de quem “desvia” do socialmente definido. Facilmente nos deparamos com sujeitos vítimas de piadas, humilhações, agressões físicas e psicológicas, assim como total exclusão no meio social, em última estância a morte.

Provocando um pouco, vamos pensar… Porque ainda agimos assim? Qual o ganho real em querer controlar o modo de ser do outro? Chocamos ao depararmos com sujeitos do mesmo sexo biológico se amando, quando naturalizamos a corrupção, o assassinato, a crueldade, a negligência, a miséria, a pobreza extrema, o racismo (…). Contraditório, não?

Será que a resposta está no conceito de gênero? Por que meninas devem sentar-se com as pernas fechadas e meninos podem deixar suas pernas abertas? Meninas choram porque são sensíveis, mas meninos se chorarem são “fracos”, “boiolas”, “viadinhos”, “não homens”. Ah! Meninos devem gostar de azul e meninas de rosa. Meninas precisam ter cabelos longos e meninos cabelos curtos (…). Estes são apenas alguns dos vários aspectos que com o tempo ganhou força e, converteu-se em regras. Mas por quê? Qual sentido disso?

De acordo com Foucault (2009) os rituais, ou seja, as normas, as regras, presentes em alguns discursos (…), definem a posição que um indivíduo deve ocupar em determinado diálogo e, consequentemente, os enunciados que deve produzir e o comportamento adequado. Tais abordagens tornam-se evidentes quando analisamos os discursos religiosos e judiciários, por exemplo, que possuem suas normas, concepções, regras de conduta que “moldam” o sujeito.  Afirma ainda, que nesse contexto encontra-se também o sistema educacional que mantém e/ou modifica a apropriação dos discursos. Ele defende, que a educação, ao mesmo tempo, em que é um instrumento de acesso aos discursos limita o sujeito, prescrevendo o que é e o que não é permitido. Caracterizando assim, o sistema de educação como uma maneira política de controlar e conduzir a apropriação dos discursos.

Para complicar ainda mais, a mentalidade do modernismo tendencia pensamentos por oposições, ou seja, por meio de binarismos que se classificam como feio/belo, forte/fraco, puro/impuro (…); de modo que o homem heterossexual conquistou maior prestígio na sociedade, e a mulher um degrau abaixo. E por fim, os que não se encaixam no binarismo como: gays, lésbicas, bissexuais, trans (…) ficam na penumbra, em outras palavras, abaixo da mulher. Para Guacira Louro (2008) “Um termo é sempre considerado superior, e o oposto seu subordinado”.

Então, mas você deve estar pensando… O que eu tenho haver com tudo isso? Posso afirmar que tudo haver. Uma vez que somos seres racionais, com capacidade teleológica e de linguagem, precisamos assumir a responsabilidade como seres pensantes, comprometidos com a igualdade e emancipação dos sujeitos sociais. Para isso é extremamente relevante não aderirmos a condutas que levem a opressão, mas lutar para uma sociedade mais justa e livre. Porém, como lutar para uma nova sociedade se os nossos valores falam mais alto? Deste modo não somos livres e responsáveis pelos nossos atos? Mesmo com todas as conquistas em relação a direitos humanos e sociais hoje, deixamos de avançar ainda mais quando imprimimos em nosso comportamento atitudes de intolerância para com o que consideramos “diferente”, não o enxergando como este realmente é. Se quisermos ser verdadeiramente livres, oferecemos a liberdade a todos. Pense, (re)pense, construa e mude.

Autor:

Stênio Marques Cunha – Assistente Social e Acadêmico do 5º Período de Psicologia

Assistente Social graduado pela Universidade Federal de Goiás (2013), com ênfase em Direitos Humanos. Acadêmico de Psicologia na Faculdade Estácio de Sá de Goiás. Especialista em Educação Inclusiva (UNIASSELVI, 2015). Especialista em Políticas Públicas (UNIASSELVI, 2017). Cursando Especialização em Psicanálise Clínica (INCURSOS). Experiência em atendimento Psicossocial, nas políticas públicas de Assistência Social, Saúde, Educação e, Conselho de Direito da Criança e do Adolescente. Atualmente membro do grupo de estudos de “Gênero e Sexualidade” pela Rede Goiana de Psicologia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FAVERO, Cintia. O que é a sexualidade. São Paulo: Info Escola, 2015.

FOUCAULT, Michel A Ordem do Discurso. Aula Inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 19.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009a.

FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol. VII. Rio de Janeiro, Imago, 1972, p. 123-250.

LOURO, Guacira Lopes. Viajantes pós-modernos. In: LOURO, G. L. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008a. p. 11-25.

______. “Estranhar” o currículo. In: LOURO, G. L. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008b. p. 55-73.

NICHOLSON, Linda. Interpretando o gênero. Rev. Est. Fem. 8 (2000/2).

Imagem: retirada do google imagens

 

 

 

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