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25 de junho de 2020
Os desafios e as dores de ser um trabalhador frente ao consumismo e à pandemia

Atualmente é notável que estamos passando por períodos de grandes reajustes, na qual fomos sujeitos a nos adaptar a uma nova forma de viver, quebrando qualquer plano e comodismo que tínhamos em tempos passados. Dessa forma, se fizermos uma pesquisa mundial, poderíamos perceber que a pandemia do COVID-19 veio para atingir a todos, independente da faixa etária, ou classe social, ou seja, de alguma forma mesmo que minimamente todos os indivíduos foram modificados enquanto pessoas e também teve mudanças na realidade em que vive.
Nessa perspectiva, podemos analisar a extrema dialética na qual estamos sendo postos em que, fomos isolados do convívio social, tendo o dever de nos privar do toque físico, mas, ao mesmo tempo, estamos unidos por uma única causa, deixando todas as desavenças de lado e sendo empáticos com outros seres humanos que foram afetados de ambas maneiras, ou seja, vivemos longe um do outro, mas mantemos o contato humano dentro do permitido e transmitimos acolhimento por outros meios como os corporais e tecnológicos. Com isso, conseguir tocar uma alma humana atualmente é muito essencial já que, todos necessitam de um apoio e uma escuta qualificada dentro da desordem na qual se está inserido.
Nesse segmento, o tema abordado acima é muito intrigante, visto que, podemos aprofundar em vários outros eixos que engloba o assunto. Dessa forma, quero falar brevemente sobre o trabalho nas circunstâncias atuais.
É certo afirmar que de acordo com sites significados do trabalho (2019), “o trabalho é um conjunto de atividades realizadas, é o esforço feito por indivíduos com o objetivo de atingir uma meta” ou seja, o trabalho está presente na vida de todos, independente se for um trabalho mental, braçal ou do lar, mas ele está ali conectado ao desenvolvimento tanto da nossa sociedade em que impõe que o homem deve produzir para girar o capitalismo, quanto ao crescimento pessoal em realizar sonhos, ser conhecido e ter sucesso. Entretanto, sempre pensando que o trabalho tem a finalidade de atingir algum propósito de vida.
Abrangendo um pouco mais o assunto, o trabalho é considerado uma identidade pessoal, ou seja, somos aquilo que fazemos, somos tratados dentro da sociedade de acordo com a nossa ocupação profissional, já que, depende muito do que produzimos para ganhar ou não respeito ao nosso redor. Porém, nem todo trabalhador ocupa a função que gosta, de acordo com Cardoso, do site extra (2018), “Cerca de 90% das pessoas estão infelizes em seus trabalhos. Desse percentual, 36,52% dos profissionais estão infelizes com o trabalho que realizam e, 64,24% gostariam de fazer algo diferente do que fazem hoje para serem mais felizes”, isto é, os números não mentem e com isso, se tem uma grande população que não sente prazer algum em realizar algo que ocupa o seu maior espaço de tempo durante o seu dia-a-dia. Dessa forma, a pergunta que fica é, mas porque continuar fazendo um trabalho monótono, em que ao final do dia o indivíduo se encontra sobrecarregado mentalmente, fisicamente e ainda não se tem um pingo de satisfação ?
Sabemos que cada contexto tem a sua especificidade, e a sua individualidade e não podemos tomar conclusões precipitadas, porém posso te oferecer respostas a essa pergunta que eles mantém o emprego por: dependência financeira, por medo do desemprego, por medo de ser taxado como um desempregado e que não conseguiu algo na vida, o famoso “atoa”. A situação piora quando o indivíduo é o provedor da casa e tem pessoas dependentes a ele, ou seja, a sua família depende que ele trabalhe duro, se esforce, se submeta ao que for preciso, para dar um bom sustento e supri as necessidades básicas de todos os envolvidos. A família é um laço muito importante na vida de um ser humano, é o primeiro grupo social na qual somos inseridos, e somos capazes de tudo para manter a ordem e não passar por dificuldade extrema.
Portanto, alinhado às implicações da pandemia do COVID-19 que foi discutido no começo desse texto, é possível inferir que desde o início do isolamento social os trabalhadores foram afetados de forma direta e indiretamente, sofrendo consequência em todos os sentidos. Alguns foram trabalhar em casa, em uma perspectiva bem-aceita que é o home office, outros perderam seus empregos, sendo dispensados e dessa forma ficaram desempregados desamparados e sem saber o que fazer. Os autônomos foram proibidos de vender suas mercadorias para evitar aglomerações tendo que se adaptar as vendas onlines. Já as donas de casa tiveram o seu trabalho em dobro, já que todos estão em seu lar e manter a limpeza, alimentação, estudos e a organização a todo momento é mais complicado. E por fim, podemos citar aqueles que continuaram o seu trabalho, por motivos empresariais e de saúde, porém é importante discutir que eles também foram afetados já que, correm o risco de ser contaminados na rua, na locomoção até o trabalho e levar o vírus para toda a sua família e entes queridos.
Dessa forma, ao longo desse conteúdo, tive o intuito de trazer a realidade dos nossos trabalhadores, aqueles insatisfeitos com o seu cargo profissional, mas que se mantêm firmes por inúmeras questões e o desfecho que a pandemia trouxe até o momento e que acaba afetando os familiares do trabalhador. Nesse sentido, é notável e quero destacar aqui, em como essas condições de vida gera uma saúde mental inadequada e está ligado intimamente a doenças psicossomáticas e mentais. Assim, é de grande importância dar voz e espaço para que esses indivíduos se expressem, que fale de suas dores, um lugar na qual eles possam estar atento a essa realidade, a se conhecer, a compreender a relevância que o trabalho tem na sua vida e os motivos pelos quais vivência toda a situação que causa esse sofrimento constante e devastador dia após dia.
Partindo disso, é legítimo salientar que vivemos em uma sociedade alienada ao consumismo, ou seja, compramos mesmo sem poder, pelo simples fato de ter posse de um produto e nao por alguma necessidade vital. É certo que, nunca estamos satisfeitos com que temos, sempre queremos mais e mais, tudo com o intuito de alimentar um ego, e de termos a sensação de poder dentro de um ciclo social, pois é dessa forma que mantemos a nossa hierarquia dentro da sociedade e mascaramos todo o mal na qual estamos inseridos. Com isso trabalhamos incansavelmente para se ter o que não precisamos, nos “matamos” mentalmente e machucamos o nosso corpo de forma brutal para conquistar e provar para outras pessoas que conseguimos comprar aquela mercadoria que a indústria produz e a maioria tem.
Essa indústria gananciosa, no decorrer dos tempos tem o seu papel fundamental para esse círculo vicioso do consumo exagerado, na qual oferece uma mão de obra barata, visando apenas o lucro e fazendo propagando que cobiça o homem a ir atrás daquele produto divulgado. Assim, o indivíduo que já se encontra em sofrimento no seu ambiente de trabalho, é enfeitiçada pela publicidade que divulga uma vida perfeita na quais poucas pessoas tem acesso, e prega que para se viver essa realidade sem sofrimento você precisa adquirir aquele produto mesmo que custe um dinheiro que você não tem como pagar, ou seja, se você quer comprar esse produto mesmo que não precise dele você deve trabalhar como uma máquina, mais e mais até conseguir. Porém, as contas não fecha pois, a burguesia exige pagar pouco para o proletariado explorado e sugando todos os meios que puder do indivíduo, mas, ao mesmo tempo, querem que os trabalhadores gaste além do que ganham e infelizmente caímos como patinhos nesse sistema capitalista.
Contudo, a consumação em massa na qual fazemos parte, é inevitável, todavia é de extrema importância que não aceitemos nada pronto, que sempre questionamos e analisemos todas as questões pertinentes ao nosso redor, criticando de forma consciente as nossas estruturas e o nosso lugar enquanto pertencentes de um grupo social, colocando a posto se precisamos mesmo viver de maneira alienada.

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Referência

Significado do trabalho. Significados, 2019. Disponivel em : https://www.significados.com.br/trabalho/ . Acesso em : 04 de junho de 2020

Cardoso, Leticia. No Brasil, cerca de 90% estão infelizes no trabalho. Extra, 17 de junho de 2018. Disponível em: https://extra.globo.com/emprego/no-brasil-cerca-de-90-estao-infelizes-no-trabalho-22780430.html . Acesso em : 04 de junho de 2020

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Autora: ANA KAROLINA LISBOA ARRUDA | Psicóloga – CRP 09/13751

Graduada em psicologia pela Universidade Alves Faria (UNIALFA). Durante a graduação realizou cursos de Cuidados paliativos, psicopatologia, LIBRAS nivel I, psicologia forense e introdutório de Gestalt-terapia. Apresentou inúmeros trabalhos em congressos até mesmo fora de Goiânia. Na prática clínica sob a luz da Gestalt-terapia tem experiência com o público infantil e adulto, tendo como demandas ansiedade, depressão, luto, baixo autoestima, questões familiares, relacionamentos amorosos entre outros. Respeitando e cuidando da sua existência, de forma acolhedora e sem julgamentos.

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