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1 de junho de 2016
O que a Psicologia tem a dizer sobre a Cultura do Estupro?

Durante esta semana, os meios de comunição estão bombardeados por opiniões acerca do estupro coletivo de uma garota de 16 anos, no Rio de Janeiro. Diante das diversas declarações sobre o acontecido, resolvi falar um pouco sobre o que a Psicologia tem a dizer a respeito. Digo a partir de uma das diversas abordagens da ciência psicológica, a psicologia histórico-cultural.

Desde o início da nossa graduação, temos como principal foco estudos e pesquisas a respeito do “ser humano”. Aprendemos desde o começo, sobre o desenvolvimento humano, em seus diversos aspectos: biológico, social, histórico político e cultural. Isso quer dizer que partimos de uma concepção de sujeito, que considera todos esses fatores como essenciais no processo de humanização.

Para a psicologia histórico-cultural, a origem do desenvolvimento humano está nas relações sociais, e os sujeitos constituem-se em um processo social, histórico e cultural. Defendemos que o ser humano se torna realmente humano, quando se apropria e transforma as práticas culturais que são mediadas nas relações sociais, em um dado momento histórico.

 

A partir dessa concepção de mundo, o que é a cultura do estupro?

Essa visão de sujeito não nos permite acreditar que o indivíduo, isoladamente, é o culpado pela forma como se comporta em nossa sociedade. Os 30 homens que estupraram a garota fazem parte de toda uma construção social, que constitui o comportamento do homem pelas diversas relações que ele vivencia no decorrer de sua vida. Eles vivem em um contexto social, cultural e histórico. Ou seja, produzem/reproduzem, constroem/desconstroem, formam/transformam o contexto em que vivemos.

A cultura do estupro se caracteriza pela construção de uma sociedade que, desde o nascimento, ensina os homens a serem “pegadores” e as mulheres “a se darem o respeito”. Vivemos em um contexto em que:

– É naturalizado o abuso velado com as “cantadas de pedreiro”, como normais.

– Vende as mulheres como objetos nas propagandas publicitárias;

– Cotidianamente realizam piadas que reproduzem inferioridade das mulheres;

– Os meninos aprendem que a masturbação é normal e as meninas aprendem que a masturbação é imoral;

– As mulheres são ensinadas que precisam “se dar o respeito” para que sejam valorizadas;

– As mulheres são ensinadas que quem “chega pra ficar” é o homem;

– É muito difícil o homem controlar a vontade de fazer sexo!

Dentre as diversas colocações acima (e outras inúmeras que não foram colocadas), a principal que irei destacar para que vocês compreendam a cultura do estupro é que “é muito difícil o homem controlar a vontade de fazer sexo”. Desde pequenas, e aqui me incluo enquanto mulher, somos ensinadas que precisamos tomar cuidado com os homens safados. Ao mesmo tempo, os homens são criados em um contexto no qual é muito normal demonstrarem seus desejos sexuais.

Essa compreensão demonstra uma construção cultural e social do discurso de uma forma naturalizadora. Isso quer dizer que não são os instintos biológicos sexuais que fazem os homens poderem demonstrar e concretizar suas vontades, e sim o que é influenciado por aquele contexto em que o homem está inserido. É uma construção cultural e social. Logo, vivemos, sim, em uma cultura do estupro, que é produzida e reproduzida nas relações sociais.

Durante o texto, ficou claro que nunca devemos culpar somente um indivíduo por ter certos tipos de comportamento. Não podemos justificar o estupro por fotos antigas, por comportamentos da garota, por falta de caráter ou doença mental dos 30 homens. Não podemos justificar tal ato pelo contexto da família, porque muito acima dela estão as condições em que a mesma foi constituída no nosso país. Não existe um culpado, existe toda uma sociedade culpada. Nós somos culpados, porque alguma vez na vida já reproduzimos os discursos colocados no decorrer desse texto. Mas como transformamos o mundo, e, ao mesmo tempo somos transformados por ele, podemos fazer diferente.

E aí, como podemos desconstruir a cultura do estupro?

Referência

Vygotsky, L. S. (s./d.) Historia del desarollo de las funciones psíquicas superiores. Obras escogidas (Vol. 3). Madrid: Visor Distribuiciones. (Texto original publicado em 1931).

Imagem: Extraída do Google Imagens

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