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13 de março de 2018
Mulheres em Rede são mais Fortes

Na semana passada, a Rede Acadêmica de Psicologia realizou a “Semana da Mulher”. As acadêmicas se uniram para escrever textos reflexivos que envolvem protestos em relação as situações que passamos cotidianamente no decorrer de nossas vidas. Sororidade, é um conceito conhecido como uma união e aliança entre as mulheres, baseado na empatia, em busca de fortalecer as mulheres em nossa sociedade, que ainda é machista e patriarcal. Compartilhamos abaixo os textos produzidos pelas estudantes, mostrando que a união em Rede nos faz cada vez mais forte! Vamos em frente, companheiras! A luta continua! Obrigada pela representatividade!

É comum, mas não é normal

Andar pelas ruas nos causam um medo imenso! Um medo real, que as vezes os noticiários não relatam: mulheres assediadas, sequestradas, violentadas e mortas por simplesmente serem mulheres e estarem nas ruas. A qualquer hora do dia, a pé, de carro ou nos transportes públicos, o medo nos acompanha em todo o trajeto que traçamos.
Muitas vezes fico me questionando: mobilidade? Pra quem? Se eu não tenho o direito de andar de uma esquina a outra sem ouvir apelidos pejorativos e cantadas de (muito) mal gosto! Quando estamos sozinhas então, puff, é certeiro: se passarmos na frente de homens (principalmente quando estão reunidos, mas não que isso seja um fator necessário), eles vão mexer, atacar e maltratar! Enquanto passamos somos nomeadas de tudo quanto é jeito, e caso olharmos (por uma súbita reação) ou não, os apelidos se divergem. Enquanto isso abaixamos nossas cabeças e torcemos (muito) para que o local que desejamos chegar, chegue logo.
Desde pequenas somos acostumadas a ouvir: não anda sozinha na rua, chama seu primo, isso não é roupa de andar na rua (…) Mas nunca fomos ensinadas a nos defender, mesmo que por palavras, ainda que compreendemos o perigo que advém dessa defesa, nós temos que entender que não, a culpa não é nossa. O medo, a insegurança, a solidão não deve ser considerada como vitimismo ou ser argumentada pela roupa que usamos, pelo horário que caminhamos. A culpa não é nossa!
Enquanto mulher, desejo poder caminhar tranquilamente nas ruas, em qualquer horário (mesmo que isso esteja condicionado a outras questões também sociais), com outras meninas, sozinha, utilizando o meio que for, só não queria ter o medo de atravessar uma rua e ser nomeada por outro nome que não o MEU, de andar de ônibus sem ser assediada, e acima de tudo, saber me defender e me sentir segura nos ambientes em que perpasso.

Maria Julia, representante

Mensagens Inesperadas

A forma como um homem inicia uma conversa com as mulheres, especialmente nas redes sociais, nos traz um desconforto imenso! Em diversas situações percebia em mim o sentimento de que o que havia sido dito, tinha mais profundidade, segundas intenções. Quando parei pra analisar, acabei percebendo algumas respostas em diversas ocasiões, que me levam a sentir desconforto, desvalorização, medo ou a necessidade de me defender. O desconforto, nessas situações, geram uma atitude defensiva. É comum para nós, mulheres, recebermos mensagens que remetem a um “dar em cima” e eu não posso sentir outra coisa se não a sensação desconfortável de (novamente) estar passando pela situação. Foi condicionado! E não importa que sejam em momentos, circunstâncias, por pessoas ou intenções diferentes das que já se viveu, a resposta será a mesma: defensiva!

A falta de valor é até um tanto quanto interessante se considerarmos, no meu caso, o fato de que cresci presenciando o meu irmão ouvir “você tem que cuidar dela, você é homem!” A questão aqui é: muitas vezes a gente usa um namorado pra fugir desse tipo de situação, temos um homem para nos “proteger” . O primeiro pensamento que eu tenho após o desconforto que sinto quando isso ocorre é “mas eu tenho namorado!” (E eu sinto vontade de usar isso como resposta, corte) mas e daí? É só quando tenho namorado que tenho de ser respeitada? Só quando tenho namorado que o outro deve entender sobre limites?
O medo… é terrível! Já estive em um relacionamento abusivo antes, e o medo está presente neste simples momento que poderia não significar nada. “O que o meu namorado vai pensar de mim?” Seria cômico se, em diversos relacionamentos, não fosse trágico! “O que o meu namorado vai pensar disso?” É o terceiro pensamento automático que paira minha mente e depois me questiono: mas o que EU estou pensando disso?
Esse é um relato de como é difícil se relacionar, principalmente com homens, sem trazer intrinsecamente questões que, como mulheres, vivemos desde a infância. Pois habituamos a nos defender deles e a usar homens contra homens para essa defesa.

Paula Ventura, representante Universo.

 Suportando Mulheres

Há mais ou menos quatro anos, com ajuda de duas amigas, me descobri feminista. No começo, foi um problema para meu companheiro e pessoas próximas, mas todos sobreviveram, pois ninguém morre por ter que dividir seu lugar privilegiado e respeitar a igualdade que existe no outro.
Hoje sou mais segura em minhas crenças e para escrever esse relato, não poderia deixar de falar do que mais gosto no feminismo: o fortalecimento entre mulheres. Sabe aquela ciranda? “Companheira me ajuda, que eu não posso andar só, eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor!” é disso que eu estou falando. Quero ressaltar que juntas somos mais fortes. Porque feminismo pra mim, é companheirismo. É semear o apoio mútuo,que muda vidas e salva também. É mudar o que nos ensinam desde cedo:que outras mulheres são nossas inimigas, que podem “roubar” nossos parceiros e parceiras, e se estamos em um mesmo espaço, estamos ali disputando. Mas não é assim. Demorei um tempo, e me encontrei no apoio e com o apoio de outras mulheres, criando uma rede de mulheres que se sustentam, que vibram com as conquistas umas das outras, se dispondo a ouvir, questionar e dar broncas. Mas acima de tudo,nos encorajamos mutuamente, buscando aquilo que nos faz bem, desenvolvendo autoconhecimento, sem exigir aquilo que não é nosso, e sim de uma sociedade que nos obriga a seguir modelos, que nunca perguntam o que queremos, mas estão com as diretrizes das nossas vidas todas prontas. Você deve estar pensando que isso acontece pela amizade, mas não, tudo começou com um grupo de amigas, mas que se estende a todas as mulheres, não excluindo o fato de sermos amigas ou não, mas de termos empatia pela outra. Por isso desejamos que elas,assim como nós, também tenham a coragem de romper com as amarras impostas. E isso me faz acreditar muito na força que vem do apoio de e para mulheres, porque só nós sabemos o quanto temos sido cobradas, moldadas, exigidas e menosprezadas.
Por isso eu peço, olhe para as mulheres da sua vida, mãe, avó, tia, professora…pergunte com ela está, elogie o trabalho dela, valorize sua presença, isso faz diferença, isso é dar suporte. Agora eu te pergunto: E aí, já suportou uma mulher hoje?

Isabel – UFG

Autoconfiança

Autoconfiança. Que palavra complicada. Autoconfiança. Entre as seis mulheres da rede acadêmica eu (@carolquxiabeira) fui à selecionada para esse tema, por quê? Bem, segundo minhas colegas, eu passo uma puta autoconfiança. Caso passe essa ideia, devo afirmar que foi uma longa jornada de psicoterapia, um caminho inclusive dolorido em que tive que desconstruir todas as coisas negativas que a sociedade colocou sobre mim.
Fui à criança gorda, aquela lá que todo mundo na infância chama de baleia. Desde que me lembro dos médicos me informam que estou acima do peso e devo de forma urgente perder peso. Lembro-me de todas as vezes que me encontrei sozinha em cantos porque não conseguia fazer amizade ou me fazer ser ouvida. E nem faz muito tempo isso.
Deparo-me mais vezes do que gostaria com a dificuldade de comprar roupas, parece que as lojas não estão prontas para uma cliente que usa 44, como se todas as mulheres tivessem 50 cm de bunda. Então, a autoconfiança não simplesmente veio embutida em mim.
Foi uma aprendizagem, afirmo. Até porque, depois de um tempo cheguei à conclusão que eu não devo esperar do próximo amor e compreensão, eu que tenho que me dar isso. Afinal, como quero isso do outro se não consigo me dar?
Então, corri atrás. Fui ao cinema sozinho, fui almoçar sozinha, viajei sozinha e cada dia, eu aprendi que eu mesma preciso amar essa Carol que sou. O meu amor próprio me liberta da minha necessidade incessante da confirmação do amor do outro.
Então, as pessoas veem a autoconfiança, e eu a adoro, a cultivo e inclusive, me orgulhei de ter sido a selecionada para esse tema. Mas, se hoje me articulo bem, ando com certeza, falo com convicção e me apresento com uma frente unida, foi porque eu tirei tempo para investir em mim mesma.
O mundo vai querer que você viesse com isso embutida, ao mesmo tempo em que lhe cobra uma lista imensa de parâmetros que irá lhe dar o selo de mulher perfeita. Pega essa lista, rasgue e depois coloque fogo. A mulher perfeita é a mulher a qual faça você mesma feliz. Quem se ama, atrai o amor do próximo, e, aliás, se não atrair não tem problema, porque ela se basta!

Carol, PUC-GO.

Padrões de Beleza

Venho falar de um assunto em que nós mulheres vivemos rodeadas, qual você acha que é? Uma dica: é um dos maiores movedores da sociedade! Descobriu? Isso mesmo, vamos falar de beleza!
Qual padrão de beleza você segue? Aqueles que saem nas revistas, na internet ou aqueles que não se encontram em nenhum lugar?
Nós estamos sujeitas a um padrão desde pequenas, começando quando estamos no útero das nossas mães; como com qual nariz iremos nascer, qual modelo de pé teremos, etc…E esse modelo permeia toda a nossa vida.
Quem nunca se deparou com uma aluna que usa óculos e aparelho, simultaneamente? Qual será o primeiro apelido que ela terá? Essa resposta eu tenho, porque quando estava na escola eu era essa menina, e o apelido carinhoso em que eu tinha era “A feia mais bela mas que de bela não tem nada”, e cresci escutando isso, pois não era a mais bonita e aos olhos de muitos, não era agradável de ser vista.

Durante muito tempo me importei com esse tipo de apelidos. E hoje, vejo que não devo me importar com o que as pessoas acham da cor do meu cabelo, com as minhas celulites, com os meus “excessos de gostosura”, a cor que eu pinto as minhas unhas, se estão decoradas ou não, as roupas que eu uso e se estão na moda ou não. O importante para mim, é estar me sentindo bem comigo mesma, sem me importar com que os outros vão pensar.
Quem faz o meu padrão de beleza sou eu mesma, e não me importo se está na moda ou não, e assim como eu espero que todas vocês comecem a seguir os seus próprios padrões e se sintam bem consigo mesma.
E aí qual o seu padrão de beleza?

Istefani, representante da UNIALFA

Somos autoras da nossa história

Cresci em uma família muito patriarcal, imersa em uma cultura em que nós, mulheres, dependíamos financeira e emocionalmente dos homens, mas mesmo inserida neste contexto nunca me senti confortável com a ideia de segui-lo. A vontade de fazer a diferença e mudar a nossa história já crescia em mim.
Com 10 anos já pegava ônibus sozinha e atravessava a cidade para ir à escola; vendia pulseirinhas e outros acessórios para as colegas e ajudava amigas a vender bombons. Desde cedo aprendi que se não lutasse não chegaria a lugar algum e para alcançar meus objetivos teria de correr atrás, sendo essa uma realidade muito presente na minha vida.
Em minha família, a minha geração foi a primeira a entrar nas universidades e logo percebi que as dificuldades de uma mulher que almeja crescimento profissional não se restringiam apenas às expectativas parentais como também aos preceitos sociais.

Propostas indecentes, assédio moral e sexual dentre outras condutas imorais sempre surgem no caminho. Em uma sociedade machista nós ainda precisamos superar obstáculos desnecessários, lutando por respeito e justiça.

Mas apesar disso tudo, nós seguimos firmes e fiéis aos nossos propósitos, pois ninguém além de nós mesmas pode decidir nosso destino. Nós somos da geração de mulheres que valorizam a si mesmas, sabem se defender, que vê nas outras uma irmã nessa luta, que se ama do jeito que é, e não segue a padrões. Nós somos da geração de mulheres que escrevem a própria história.

Catarine, representante ESTÁCIO.

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