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7 de fevereiro de 2019
Escutem os transtornos, estamos em obra!

Desde o advento da descoberta dos psicotrópicos, ainda no século XIX em meados de 1800, inicia-se um movimento em busca da verdade a respeito das doenças que não apareciam em exames. Pessoas que sofriam de perturbações mentais geralmente eram vistas como malandras ou obsediadas por espíritos inferiores, demônios, etc. A preocupação com o cuidado a essas pessoas começa um pouco antes, a partir do olhar cuidadoso de um médico francês chamado Philippe Pinel. Daí a famosa expressão: “Fulano está ficando pinel”. Ingrata piada com nosso querido precursor dos cuidados em saúde mental, pois foi somente por meio dessa e outras lutas que a ciência que estuda a mente, emoções e comportamentos humanos puderam expandir em direção ao status de validade científica.

Como dizer de algo que não pertence à materialidade concreta num período de crescimento da ciência positivista? Nos laboratórios de Psicologia, medicina do comportamento, etologia e análise do comportamento, as pesquisas também estavam se firmando. Watson, Skinner, Kraepelin, Fritz Pelrs, não exatamente nessa ordem, seguem estudando, pesquisando até chegarmos bem ali no século XX, década de oitenta com novas propostas e revoluções que favoreceram o enfermo da mente. Não dava mais para negar o sofrimento de pessoas que lotavam a famosa “nau dos alienados”. No século dezenove não era tão diferente de hoje em aspectos. Quem tinha poder aquisitivo isolava seus doentes em manicômios em condições sanitárias duvidosas, apelavam para exorcismos, banhos gelados, compressas, emplastos, sangrias, flagelos e todo tipo de soluções arranjadas. Imaginem o sofrimento desses pacientes.

No hospital da Salpetrierè um pouco mais tarde, em meados de 1905, um distinto pesquisador preceptor da escola de medicina Jean-Martin Charcot, também famoso por suas pesquisas com doentes rejeitados pelos positivistas ortodoxos, recebe um aluno de medicina, aspirante a neurologista que interessa-se pelo sofrimento de mulheres internadas com diagnósticos indeterminados. Vejam bem essas mulheres! É redundante falar da etimologia da palavra histeria pois esse legado deve-se a construção discursiva da loucura a partir do grito abafado de mulheres que sofriam no silêncio da vida doméstica da aristocracia. A loucura já nasce com gênero e grau. Mas vamos olhar adiante. Se, semelhante a mim, você gosta de etimologia, dê um google e pesquise mais esse tema com o termo hysteron.

Debruçado sob o leito dessas mulheres que apresentavam paralisias diversas, contraturas, choro copioso, aspecto de loucura e angústia…ninguém menos que nosso prezado médico judeu Sigismund Schlomo Freud, conhecido como Freud (do famoso “Freud explica”, que na verdade não explica.) inicia o método que revolucionaria a história da clínica da escuta – a Psicanálise ou cura pela fala. Simples, não? Claro que a história não é tão linda assim…tudo ocorre dentro de um contexto político filosófico acadêmico, com direito a rupturas irreparáveis e desfile de egos, onde a ciência positivista não abria espaço para alquimistas iniciantes, bruxas ou estagiários de exorcistas. O mundo vivia um período de iluminação de saberes após longo percurso trevoso de privilégio à intuição e comportamentos mágicos. Ai de quem se propusesse a falar de algo abstrato sem exames de imagem. Pior que nem Conrad Rontgen, descobridor do raio-X podia ajudar muito.Até hoje, com a ressonância magnética e todos os exames queridinhos de nossa época são muitas as limitações para fechamento de diagnósticos. A Psicologia e a Psiquiatria são ciências que se alicerçam em uma base de abstração analítica. Mas isso, deixemos que os colegas expliquem.

Naquela época ver uma pessoa fazendo sintomas de contraturas e histerias, já era condição sine qua non para exclusão à ala dos alienados. Como auxiliar um paciente paralisado, acamado há meses com mutismo indeterminado? Pacientes que oneravam o sistema de saúde e não despertavam o interesse dos ávidos futuros cirurgiões? Essa era a pergunta de um milhão de dólares.

Atualmente esses cuidados ainda nos são caros e pagos em dinheiro e afeto. Há que se desejar caminhar em direção ao eco dos gritos noturnos daqueles que sofrem.

Depois de tantos avanços, hoje entendemos que, grandes mudanças só são possíveis a partir do movimento que surge dentro do caos. Somente quem faz parte de um contexto específico de sofrimento ou falta, pode produzir transformações significativas. Por isso, perseveramos, O nascimento da clínica da escuta surge a partir do desejo de profissionais que estão implicados no processo. Ao cuidar de gente em crise, em surto, bipolarizada (como gostam de falar), “gente pinel”… Vão nos enquadrando nessas categorias também. Vão nos enredando em práticas discursivas excludentes e nós vamos inventando palavras, bendizendo o sintoma e seguindo em frente. Aproximamos do fenômeno enquanto sujeitos e não mais como observadores do objeto. Nós estamos enlaçados sim, pela loucura que é olhar pra dentro desse encontro humano. Nós estamos aqui. Com a ousadia que invocamos os entes delirantes que pedem espaço de fala, auxiliamos pessoas e escutarem o que foi abafado pela mordaça da repressão, do recalcado no inconsciente. O mais incrível disso tudo é que o objeto de interesse dessas simples letras é somente pra relembrarmos o quanto é antiga e valiosa a luta pela garantia de direitos de pacientes que sofrem de transtornos e/ou qualquer tipo de enfermidade mental.

Esse mês nós falaremos sobre isso abertamente, aqui no site da REDE de PSICOLOGIA, em nossas teias movimentadas do amor insano. Falaremos com alegria, com o coração grato e festivo por termos avançado um tanto, alegria por desejarmos mais. A psicologia em suas diversas abordagens teórico-metodológicas, a medicina em suas múltiplas especialidades, a família, a comunidade e todos nós em rede. Nós nos comprometemos a acolher cuidadosamente, a olhar nos olhos e perguntar: “o que se passa contigo?” ou “desde quando sente-se assim?”. Então se você sofre de algum transtorno ou conhece alguém que sofre, corre pra cá! Vamos juntos. Vamos validar todos esses anos de construção de boas práticas em saúde mental lembrando que os desafios nunca cessam e estamos juntos sempre. Galhos ao alto e raízes às profundezas, pra frente e pro alto. Somos rede!

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