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9 de fevereiro de 2015
Entrevista de Skinner para a Revista Veja – 1983
 
Estado de Alerta Máximo
O grande papa da ciência do comportamento identifica em problemas como a ameaça
nuclear ou a superpopulação perigos inéditos para o mundo
Por Selma Santa Cruz
As idéias de Skinner propunham uma
revolução nas ciências humanas – e jamais, desde que foram enunciadas, deixaram
de provocar polêmicas. Alguns saudaram, na sua sugestão de que o indivíduo
poderia ser induzido a agir de forma positiva ou negativa, uma vez
convenientemente levado a uma ou outra direção, a possibilidade de surgimento
de um homem novo. Outros, porém, logo suspeitaram nas técnicas de controle por
ele formuladas um ranço totalitário capaz de produzir regimes tirânicos.
Nos últimos meses, e agora já quase lendário aos 79 anos, B.F. Skinner voltou a
freqüentar as paginas dos jornais com uma mensagem alarmista: a espécie humana,
repete ele, caminha para a extinção. Ao mesmo tempo, ele cativa audiências ao
aplicar sua controvertida técnica de controle do comportamento contra um
inimigo universalmente detestado: a velhice, tema de seu ultimo livro, prestes
a ser publicado, Vivendo bem a velhice. Skinner, na verdade, apresenta-se como
a melhor propaganda do método que anuncia: quase octogenário, ele ainda
trabalha diariamente em seu escritório de Harvard e viaja pelo mundo todo para conferências.
Pode ser esta a última chance do doente
VEJA– O senhor sempre afirmou que o avanço nas ciências humanas, sobretudo
na psicologia, abriria caminho para uma civilização mais avançada, quase
utópica, mas, ultimamente, tem parecido muito pessimista. O que mudou?
SKINNER– Ainda acredito que as técnicas de mudança de comportamento
permitem um progresso grande, particularmente em áreas específicas, como o uso
da educação programada nas escolas para acelerar a aprendizagem, a criação de
sistemas de incentivo na indústria para aumentar a produtividade e,
naturalmente, em psicoterapia. Nesse sentido, o behaviorismo, ao esclarecer
como o homem age em função de estímulos positivos ou negativos, pode ter um
impacto positivo, no futuro imediato, contribuindo para uma sociedade mais bem
informada, rica e satisfeita. Mas estamos ameaçados pelas conseqüências que
nossas ações atuais, como corpo social, terão no futuro distante. E é por isso
que estou tão pessimista. O mundo está caminhando para o desastre, confrontando
com problemas em escala inédita.
VEJA– Que problemas são esses?
SKINNER– A superpopulação, por exemplo. Parece
óbvio para qualquer pessoa sensata que há um limite para a quantidade de seres
humanos que podem viver no planeta, mas não se está fazendo um esforço sério
para lidar com a questão. Temos 4,5 bilhões de pessoas, pelo menos metade das
quais subnutridas – e, como não estamos conseguindo resolver o problema delas,
nada indica que os outros bilhões que virão terão sorte muito diferente.
Estamos destruindo o meio ambiente, consumindo recursos naturais em ritmo mais
rápido do que eles se repõem. Todos os estudos científicos mostram que estas
práticas, hoje, levam ao desastre, mas não estamos tentando seriamente promover
mudanças. E, pior de tudo, há a ameaça nuclear. È mais do que óbvia a
necessidade de conter o arsenal nuclear, mas um balanço das últimas décadas
mostra que não estamos tendo sucesso nesse sentido. Pelo contrário, do jeito
que as coisas vão, parece cada vez mais improvável que as potências cedam na
resolução de conflitos.
VEJA– Ao longo da história, a raça humana superou variadas espécies de
conjunturas desfavoráveis que pareciam, à época, insolúveis. Por que não
resolveríamos os problemas, desta vez?
SKINNER– Este argumento é como consolar um
doente que está morrendo lembrando que, afinal, ele esteve doente outras vezes
e sempre se recuperou. O mundo pode estar chegando a uma condição única, em que
pela primeira vez, na história, está de fato morrendo – e não estamos fazendo
nada para salvá-lo.
O homem nada faz sem estímulos
VEJA– Movimentos como o pacifista e o ecológico não mostram uma consciência
nova sobre os problemas que o senhor aponta? Já não estaria havendo algum
progresso, sobretudo na preservação do meio ambiente?
SKINNER– Alguns setores da população, o
chamado “quarto estado”, que engloba cientistas, professores,
profissionais da informação e intelectuais em geral – em relação aos três
estados tradicionalmente dominantes: governo, igreja e empresariado -,
realmente dão sinais de consciência do problema. Fazem-se passeatas,
manifestos. Mas não é assim que se consegue mudar o comportamento de 4,5
bilhões de pessoas. Se você falar com a maioria dos acadêmicos aqui em
Cambridge, eles reconhecerão que é um absurdo uma pessoa ir de carro particular
até Boston, desperdiçando gasolina e poluindo o ar, quando poderia muito bem
tomar o metrô. Mas o único jeito de fazer com que as pessoas realmente tomassem
o metrô seria se o governo as induzisse a isto, cobrando pedágios bem mais
caros no túnel para Boston, por exemplo. Porque a única forma de promover as
mudanças necessárias e com a rapidez necessária – isto é, controlar o
crescimento demográfico, promover estilos de vida mais simples, com menos
desperdício e prejuízo para o meio ambiente -, seria se a indústria, a igreja
ou o governo, os que têm poder, se dispusessem a implementá-las.
VEJA– Mas pelo menos nos casos das democracias, não é verdade que os
governos e mesmo a indústria costumam ser induzidos a promover mudanças quando
elas se tornam indispensáveis?
SKINNER– Acho que os detentores do poder econômico, os que têm dinheiro,
vão continuar a usá-lo para produzir lucros rápidos, sem qualquer preocupação
com os problemas globais. As coisas a este nível são tão pouco planejadas que
um país como o México pode ir à bancarrota de repente, e pegar o mundo
financeiro desprevenido. Quanto aos políticos, eles estão sempre preocupados
com a próxima eleição e, portanto, indispostos a pregar sacrifícios hoje, para
preservar o futuro. Durante o momento mais crítico da crise energética, alguns
países impuseram limites no consumo de petróleo, mas, tão logo passada a
emergência, voltamos aos velhos hábitos, embora a ameaça de escassez continue
presente. Deveríamos ter leis severas para favorecer o transporte público,
manter baixa a temperatura dos aquecedores no inverno e limitar o uso dos
aparelhos de ar-condicionado no verão – isto em base permanente. Mas o problema
é que os políticos não querem o ônus de um programa necessariamente impopular e
nossa sociedade está voltada para a gratificação imediata, o conforto absoluto.
Chegamos a um ponto em que tornou-se imperativo tomar medidas para preservar o
planeta e a espécie. E não estamos fazendo isto.
VEJA– Mas existe alguma fórmula para fazer com que as pessoas aceitem o
sacrifício? É possível sensibilizá-las para este futuro distante?
SKINNER– É característico da espécie humana agir em função apenas do
futuro mais próximo e da experiência passada. Porque o futuro mais distante não
existe, no sentido de que não foi experimentando. Ninguém toma uma estrada
desconhecida sem razão. Se entrar nela é porque lhe disseram que tem paisagem
bonita, ou que tem alguma vantagem sobre as outras. Da mesma forma, o homem não
faz nada sem uma expectativa, um estímulo que encoraje ou desencoraje seu
comportamento.Sobretudo quando é algo para o futuro distante. Instituições como
a igreja, governo e indústria sempre usaram estes reforços de comportamento
para fazer com que as pessoas trabalhassem para o futuro. A indústria acena com
a recompensa do salário para que seus empregados produzam. Governo e religião
sempre souberam manipular a técnica do prêmio ou castigo para induzir as
pessoas a dar a vida por suas causas. Infelizmente, o futuro destas
instituições não coincide necessariamente com o interesse da preservação da
espécie. Há um consenso de que é preciso conter o crescimento demográfico. Mas
o empresariado não se importa – crescimento zero é péssimo para o mercado. Os
governos também não se importam – a força dos exércitos depende da
disponibilidade de recrutas. E, como já disse, os políticos estão mais
preocupados é com a próxima eleição.
Males e exageros da “liberdade nervosa”
VEJA– Pelo que o senhor diz seria preciso impor estas mudanças, já que
elas não são populares. Mas isto não extinguiria um regime autoritário?
SKINNER– Quando escrevi meu livro Além da liberdade e da dignidade, há
dez anos, fui acusado de estar descartando os valores mais caros da
civilização, propondo a manipulação das massas Mas isto era uma simplificação
grosseira. O que digo é que a satisfação material é um valor perigoso, e as
sociedades afluentes foram bem-sucedidas demais em garanti-la. Nas sociedades
avançadas, elevou-se o direito individual a valor absoluto – o direito, por
exemplo, de se consumir quanto se deseja, sem interferências, mesmo que estes
padrões de consumo sejam em detrimento do meio ambiente e do todo social. Nas
sociedades mais avançadas, praticamente acabamos com as formas de controle
punitivo. Em educação somos extremamente complacentes, a justiça dá sentenças
generosas para criminosos, prisões são consideradas uma afronta à dignidade
humana. Acho que houve uma evolução positiva, não estou defendendo a volta da
palmatória ou da guilhotina, mas acho que há um exagero neste conceito de
direito do indivíduo. Não se trata de abrir mão da liberdade, mas quando se
começa a falar em direito dos animais, direito de se andar de motocicleta sem
capacete, direito de usar carros poluentes ou direito dos fetos, há sem dúvida
um exagero. É o que chamo de “Libertas Nervosa”.
VEJA– Como assim?
SKINNER– Trata-se de uma comparação com a
anorexia nervosa, a doença em que a pessoa, para perder peso, faz uma dieta,
mas não consegue parar quando atinge o equilíbrio e continua a dieta até a
desnutrição. Não digo que as sociedades afluentes tenham que abrir mão do
respeito à liberdade e dignidade individuais, mas que, levados ao extremo,
estes valores podem ameaçar a sobrevivência da sociedade como um todo. Se você
elege em direito absoluto do indivíduo ter quantos filhos quiser, poluir a
atmosfera a seu bel-prazer ou consumir recursos não renováveis no ritmo que
desejar, estamos bloqueando nossa possibilidade de promover novas formas de
comportamento que garantam o futuro de toda a sociedade. Já sabemos o
suficiente sobre o comportamento humano para poder recorrer a estímulos que
induzam a mudanças de comportamento necessárias para resolver estes problemas
graves que nos desafiam. Mas não faremos nada se ficarmos presos à noção de que
isto interfere com a liberdade dos indivíduos.
Tudo pode ser usado para fins sinistros
VEJA– Quando se começa a abrir mão desta liberdade, não há risco de grupos
no poder usarem estas práticas de controle sem considerar o bem comum? E quem é
que decide qual é o bem comum?
SKINNER– Claro que o ideal seria o príncipe
esclarecido de Maquiavel, ou o rei-filósofo de Platão. Mas o problema com estes
regimes ditatoriais é que eles bloqueiam o progresso, tendem à estagnação,
enquanto sociedades com grau maior de liberdade evoluem mais rapidamente. Não
acho que as sociedades marxistas, onde há controle absoluto, sejam mais
eficientes – e não gostaria de morar na URSS, porque mesmo que os homens do
topo tenham boas intenções, a vida dos cidadãos é desinteressante e cheia de
inconveniências. Não acredito que seria preciso uma sociedade fechada, com um
grupo manipulando as massas, para promovermos as mudanças de comportamento que
defendo. Meu ponto é justamente que seria possível, usando nosso conhecimento
sobre o comportamento humano, sensibilizar as pessoas para estes problemas e
induzi-las, de forma positiva, a mudar.
VEJA– A educação seria um caminho?
SKINNER– O sistema educacional seria, sem dúvida, o ponto onde atacar.
Mas não tenho qualquer esperança. O sistema educacional atual é o grande
escândalo de nossa civilização, totalmente ultrapassado. Através da ciência do
comportamento, desenvolvemos a educação programada, por exemplo, em que os
estudantes usam materiais projetados especialmente para recompensar o avanço de
cada um na aprendizagem – e torná-la mais rápida e interessante. Alguns setores
pioneiros a adotam, mas, quase trinta anos depois, a maioria das escolas ainda
resiste à idéia de educação programada, alegando que ela é massificante, ou que
não respeita a individualidade e originalidade de cada indivíduo. Não vejo como
educação programada seria mais massificante do que a televisão, por exemplo,
mas isto ilustra bem como estamos presos a conceitos às vezes ultrapassados.
VEJA– E o senhor não vê qualquer possibilidade de mudança?
SKINNER– Se eu tivesse que prever o estado da sociedade daqui a 100
anos, se sobrevivermos a um desastre atômico, diria que haverá infelizmente um
único governo autoritário – porque a esta altura este tipo de regime terá se
tornado imperativo para controlar o crescimento populacional, a poluição e o
consumo de recursos não renováveis.O Lamentável é que temos tecnologia e
conhecimentos suficientes sobre comportamento para construirmos um mundo
diferente, mas não somos capazes.
VEJA– Para muitas pessoas, Skinner e behaviorismo, embora já
incorporados à ciência, ainda são sinônimos de manipulação de comportamento e
possibilidades sinistras. Isso o incomoda?
SKINNER– Eu estou é preocupado com a escalada das armas nucleares, mas
não culpo Einstein por isto. Lamento, como todo mundo, que certas drogas
pesquisadas com fins farmacêuticos sejam usadas por viciados, mas nem por isso
vai defender-se o fim da pesquisa farmacêutica. Não se acaba com os automóveis
porque motoristas bêbados os usam para matar. Tudo pode ser usado para fins
sinistros e isto vale para a tecnologia do comportamento. O fato é que pessoas
habilidosas sempre souberam manipular o comportamento de outras. Só que o
faziam intuitivamente, como uma arte. Alguns tinham o talento, outros não. Com
o behaviorismo, explicamos como isto se faz.
VEJA– Ultimamente o senhor está popularizando estratagemas para superar
os desconfortos da velhice. Até que ponto é possível retardar a senilidade
mental?
SKINNER– A velhice é como o cansaço, com a
diferença de que você não a elimina tirando férias ou uma soneca. Mas ela não
precisa ser necessariamente o fim de qualquer atividade intelectual
gratificante. Com este meu novo livro, eu terei publicado seis deles desde que
completei 70 anos, o que é uma marca excelente para qualquer acadêmico. Isto
foi possível porque, usando os conhecimentos desenvolvidos em laboratórios
sobre comportamento humano, eu arranjei minha rotina de forma a que eu possa
render tanto quanto possível. O segredo é justamente a lição do behaviorismo,
de que nosso comportamento é pautado por reforços positivos ou negativos do
meio ambiente. Você age de um modo, e há sempre conseqüências. Se elas são
positivas para você, a tendência é repetir o comportamento. O problema é que na
velhice somos gradualmente privados de todo tipo de reforço. O segredo é buscar
formas de comportamentos que compensem.
VEJA– Por exemplo?
SKINNER– Na velhice não se sente bem o sabor dos alimentos, perde-se o
apetite. Muitos desistem de apreciar música porque ouvem mal. Perdem-se os
amigos, o sexo já não é estimulante, a aposentadoria elimina os estímulos
profissionais e financeiros. Sem todos estes reforços, é compreensível que
muitos velhos sejam derrubados pela depressão. É preciso aprender a trabalhar
menos horas, perceber quando a fadiga mental interfere, saber então descansar
profundamente para que o trabalho, quando reiniciado, seja gratificante.
Truques para ajudar na velhice
VEJA– Pode-se usar um aparelho para a perda auditiva. Mas e a perda da
memória?
SKINNER– Há pequenos truques que explico no livro para contornar a perda
da memória, alguns bem simples. O importante é aceitar a deficiência e achar um
jeito de combatê-la. Andar sempre com papel e lápis no bolso, por exemplo, ou
um gravador, para registrar na hora todas as idéias antes que elas se percam.
Procurar formas de lazer adequadas. Eu gostava de ler Balzac, mas a boa
literatura é mais cansativa. Jogos complicados, como o xadrez, também não são
adequados. Se se tiver a humildade de ler coisas mais simples, na hora do
lazer, ou mesmo assistir televisão, pode-se realmente relaxar, para ser capaz,
depois, de trabalhar produtivamente algumas horas. É preciso fazer um esforço
para experimentar coisas novas, projetar quase cientificamente uma rotina e um
estilo de vida que ofereçam estímulos específicos para substituir os que a
sociedade e a deterioração física vão gradualmente eliminando.
Fonte:

 

Skinner,
B.F. (1983, julho 15).
Estado de
alerta máximo. Veja, 03-06. (entrevista).
Imagem: Extraída do Google Imagens.
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