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8 de março de 2021
Dia das mulheres: O que estamos comemorando?

Popularmente a data de origem dessa comemoração é atribuída a um incêndio numa fábrica têxtil, onde muitas mulheres foram mortas. No entanto, existem várias versões sobre esse fato que levantam o questionamento se realmente foi um acidente ou incêndio criminoso. Mas uma coisa é certa, já havia muita luta das mulheres naquela época por seus direitos: melhores condições de trabalho, igualdade na política entre tantas outras pautas.

Reduzir o dia da mulher a esse acontecimento é desvalorizar toda a luta dessas mulheres, que já existiam antes mesmo desse marco. Tratar esse dia apenas como data comercial na qual se presenteia com flores, maquiagens, bombons e tantas outras coisas também é soterrar as muitas reflexões que o dia pode trazer.

Pensando na nossa história percebemos que por muitas vezes fomos e somos colocadas no lugar de objeto, tratadas como tal. Podemos observar que em vários períodos da história a mulher assume um lugar secundário, ou desvalorizado. Desde a Grécia Antiga, onde mulheres não participavam de espaços públicos, somente os homens. Na Idade Média eram queimadas e a justificativa era bruxaria, porém estudos apontam que nesse despontar do capitalismo (até então era o feudalismo) muitas mulheres pegaram em armas e provocaram levantes e rebeliões contra o poder vigente, que tomavam suas terras e tiravam a comida da boca de seus filhos. Mais adiante na História houve uma “domesticação” das mulheres, confinando-a dentro de casa e colocando trabalhos infindáveis com a casa e os filhos, trabalho este que por muitas vezes foi e ainda é romantizado.

Ao longo da história a mulher sempre trabalhou e não despropositadamente seu trabalho perdeu o valor no início do capitalismo. Porque era necessário que ela tivesse mais filhos para se terem mais mãos para o trabalho assalariado. E quem ia trabalhar por um salário precisa de “apoio” como a comida pronta, a roupa lavada. Com a grande carga horária do assalariado quem iria olhar os filhos? Era necessário que ela gerasse filhos para o capital e tomasse conta da casa para o homem poder se doar mais intensamente a esse trabalho. Resultado: foi retirado da mulher o direito ao seu corpo e ao valor devido do seu trabalho.

E tudo isso explode no século XIX, com as muitas lutas dessas mulheres operárias. É no século XIX que Freud, um médico que depois viria a ser o criador da psicanálise, se propõe a escutar essas mulheres e assim dando a elas a oportunidade de começarem a terem voz. Mulheres estas que estavam “silenciadas”, assim como suas questões e sintomas. É nesse mesmo século que as lutas se intensificam para que as mulheres tivessem melhores condições de viver.

Hoje já conseguimos muitos direitos, porém, ainda nos falta muito por conquistar. A partir da década de 1960 veio a pílula anticoncepcional dando mais autonomia para as mulheres sobre seus corpos. O divórcio foi instituído como lei. A mulher pôde trabalhar fora de casa e ser remunerada por isso. Mas em contra partida acumulamos muitas funções, agora erámos mãe, dona de casa, profissional, o que acumulou ainda mais a nossa carga de trabalho, considerando que por muito tempo o trabalho doméstico era visto como função única do feminino e não havia discussão sobre isso.

Ainda sofremos pressão para ter filhos, pois só assim seremos mulheres “completas”, e aquelas que escolhem por não desempenharem a maternidade são duramente criticadas. O feminicídio ainda tem taxas altíssimas em nosso país, alimentado por uma cultura machista e com ações como “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, que fazem os homens ainda agirem como se tivessem posse dos nossos corpos a ponto de feri-los ou até os eliminar.

Continuamos com pouca representação política, precisando nos impor com mais autoridade para termos nossa voz e discurso ouvidos, e ainda escutamos piadas com insinuações de que assim estamos deixando de sermos femininas. Não deixando de mencionar também a questão estética, a alta cobrança para se encaixar num padrão que impõe que a mulher tem ser magra, bem arrumada e jovem, já que o envelhecimento também não é bem visto. Ou seja, as anos se passaram, mas ainda dizem o que podemos, devemos ou não fazer.

Os presentes nessa data podem sim serem bem vindos, porém o que realmente pode ser dado e que lutamos para ter durante todo o ano é equidade e respeito. Por nossa luta histórica e diária.

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AUTORAS:

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ANA PAULA CURADO DA PAZ SANTOS | Psicóloga – CRP 09/10452

Graduada pela UFG, especialista em Psicanálise Clinica pelo INCURSOS. Experiência em atendimentos na área da saúde com atividades na Mastologia do HC-GO. Desempenhei pesquisas e trabalhos pela UFG com grupos voltados ao público da terceira idade. Atuei na área de licenciatura com adolescentes. Atuo como psicóloga clinica; voluntária como psicóloga social na OVG – GO, psicóloga do Programa Florescer(núcleo de atendimento em terapia da Sexualidade; Centro de Formação e Supervisão em Gênero e Sexualidade e consultoria em Educação para Sexualidade). Além de formação permanente em Psicanálise e contínua em Sexualidade e Gênero.

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CLEYRE MESSIAS GONTIJO | Psicóloga – CRP 09/10965

Graduada pela Unialfa em Psicologia. Realizou estágio com dependentes químicos e clínica. Na clínica atua com atendimento individual. Estuda o feminino e a feminilidade com enfoque psicanalítico. Pós graduanda no Incursos, no curso “O sujeito e suas formas de subjetivação”.

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