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22 de junho de 2020
Crônica de tempos de pandemia

Uma Mulher, Mãe, Em Home Office, e Sua Insustentável Leveza De Viver a Quarentena…

(Ou como fazer tudo no mesmo dia, no mesmo espaço, ao mesmo tempo?)

Eu imaginei que seria como eu via na internet, nos filmes e na televisão. Pesquisei sobre como trabalhar e ser produtiva em casa:

– Defini um “cantinho do trabalho”, onde coloquei uma pequena mesa e montei minha parafernália de escritório home office; – Planejei acordar sempre cedo, tomar banho e me produzir para trabalhar, inclusive para as reuniões por videoconferências;

– Tomaria meu café da manhã completo, começaria meu expediente pontualmente e o cumpriria como antes. Ah, pararia para o almoço e teria duas pequeninas pausas no meio de cada período;

– Não me distrairia, muito menos deixaria abruptamente meu trabalho no meio de uma atividade.

Então, estaria sempre bem, produtiva, naquela “vibe de mindset positiva e plena”, ladeada pelos amores da minha vida: minhas crianças!

Mas …. na realidade, um dia meu é bem diferente disso:

Acordo bem cedinho, como antes. Ajeito-me como posso…o relógio parece estar cada dia mais veloz! O Júnior, meu caçula, acorda bem cedo também e já pede a mamadeira. Volto ao quarto, visto-me rapidamente, penteio os cabelos e escovo os dentes. (O batom eu coloco no bolso da bermuda, com a inocente esperança de usá-lo dali um pouco). Acordo a Paulinha. Ela tem aula online às 07:30 da matina. Preparo o nosso café. Ela acorda sonolenta, irritadiça, resmunga que quer ficar na cama… Protesta para não pentear os cabelos. Escova os dentes, pega um iogurte de beber e vai fazer seu login na aula: invenção moderna de estressar crianças pequenas em tempos de pandemia! O computador que ela usa, um que já estava encostado, está sem bateria. (Socorro!) Onde está a extensão para ligar o carregador? Saímos as duas procurando, até que a encontramos entre o sofá e alguns carrinhos. Ela, então, entra na sala virtual!  O Juninho chega perto de mim choramingando e puxando seu pijama com as mãozinhas. Então eu me lembro que não troquei suas fraldas ainda! Corro e troco sua roupa. Dou-lhe alguns brinquedos e explico que a “mamãe precisa trabalhar”.

 

O dia segue…

Paulinha grita que a professora está muda! Corro lá e ligo o áudio! Meu café esfriou na xícara. Bebo mesmo assim! Olho no relógio: 08:14… me apresso para acessar o link da reunião. Para meu desespero, o computador não liga!!! Checo os botões, o carregador … tudo certo… Ah, a gatinha andara por lá, provavelmente pulou aonde não deveria e um dos fios se desconectou. (😱…) Pronto! Consigo finalmente me juntar ao grupo, atrasada. A reunião acontece: não sem algumas batidas na porta! … Então faço compras de supermercado pelo aplicativo. O Juninho chora porque a TV está muito baixa e ele não escuta seu desenho animado. As compras chegam. (Que bom! Eagora?) Corro na portaria para buscá-las. Uso máscaras, saco plástico nas mãos e tento não tocar na parte interna do elevador. Fico muito ansiosa! Preocupada! (O tal do estresse tóxico, né, minha filha?) Deixo as compras dentro do tanque na área de serviço. Agora sim, corro para o banho, troco de roupa. Lavo cada pacote de bolacha, de arroz, de batata palha… Hora de preparar o almoço. Pego algo no freezer e levo para o microondas. Culpo-me por não estar dando comida saudável para a minha família. Sinto-me mal com isto! Mas não há tempo para cozinhar hoje. Sirvo os meninos, como e já empilho a louça. Ajeito as crianças… Juninho se recusa a tirar o cochilo da tarde. Fica irritadiço. Tento acalmá-lo, mas vou ficando estressada, ansiosa para ele dormir rápido e eu voltar ao trabalho. (Culpo-me de novo!) Coloco as roupas na máquina de lavar. Trabalho um tempo, a Paulinha pede ajuda com as tarefas. Tem que enviar a redação antes das 16:00 horas! 😨 Ajeito o chão da cozinha, limpo o banheiro e recolho o lixo. Volto para meu computador. Atendo uma ligação de um cliente da empresa. Faço orçamentos e os encaminho. Converso com o gerente. O Juninho (que tinha sido vencido pelo sono) acorda e pede que eu brinque com ele. Fala que está com saudades dos amiguinhos da escola e da vovó. Que quer ir brincar no parquinho e andar de bicicleta. Meu coração aperta! Tento conversar com ele e acolher sua tristeza. Também estou triste, mas sorrio para acalentá-lo.

Meu celular vibra: cobrança do trabalho. Lembro-me da meta que preciso bater na semana!!! Começa uma dor de cabeça, quase não bebi água. Preparo as merendas das crianças e volto para a mesa de trabalho. Checo os e-mails, respondo os mais urgentes. Vou às mensagens do Whatsapp. Vejo algo enviado pela minha mãe, que é idosa. Ligo para ela, parece tristonha. Converso um pouco por vídeo e volto ao home office. 💔 Esqueci-me das roupas na máquina. Coloco todas nos varais. Volto ajeitando alguns brinquedos pelo caminho…

A execução das tarefas do meu trabalho avança o suposto término do expediente… faltam algumas pendências do dia! ⏳ Assim que posso, paro, e vou dar o banho no caçula! Digo à Paulinha que também tome banho, enquanto preparo o jantar. Ajeito minhas listas de tarefas do dia seguinte…Categorizo as urgentes e as importantes, por ordem de prioridade…🧭 Vejo algo que prometi para as crianças, conversamos e rimos. Levo-os para escovar os dentes, reforço a limpeza e os acompanho até as camas. Volto e ajeito mais alguma coisa da casa. Checo as roupas do dia seguinte…⌛

Penso em fazer um treino 🚲 de ergométrica: faltam-me forças! Alongo, então, um pouco. Quase durmo ali no chão mesmo. Estou exausta! A minha sobrecarga mental agudiza a fadiga geral! Tento meditar alguns minutos: levanto-me e vou checar algumas informações para a reunião do dia seguinte de manhãzinha. Tomo banho, escovo os dentes. Estou ansiosa e preocupada com os riscos à saúde (minha e da minha família) nestes tempos de pandemia! Penso em ler sobre as últimas notícias do dia… Resisto! Já vi ontem, melhor deixar para outra hora. [Agora, passados dois meses, começa a pesar de um jeito diferente. Tenho uma mistura de sentimentos cada vez maior! Às vezes fico esperançosa, às vezes, desanimada! Fico feliz com as crianças por perto. Amo ser mãe e amo meus filhos. Mas estou exausta, ansiosa; às vezes deprimida e estressada. Tenho medo do contágio do vírus, tenho medo de ficar sem trabalho… estou numa montanha russa emocional. Às vezes choro escondido, outras danço e brinco com as crianças, damos risadas juntos e nos divertimos um pouco!  Mas, também, sinto-me pressionada pelo trabalho e sinto-me como uma mãe que não está sendo boa como eu gostaria.] Ouço uma música, vou escovar os dentes… me vejo no espelho! Ops!!! 😬 Sei bem que não dei conta de tudo o que era previsto para o dia, ainda assim vou descansar! Amanhã o dia chegará cheio de horas vazias para eu esperançar e viver dando de novo o meu melhor! E eu preciso me deitar a cada noite apostando que isto é (e será!) o suficiente! E também é necessário para eu amanhecer de novo, junto com o raiar do dia! E sonhar…apesar de!

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Autora:
RÔZI-MAYRY OLIVEIRA SOARES DUARTE

Psicóloga – CRP 09/01304

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