Conteúdo

6 de maio de 2022
Acolhimento a vitimas de racismo

Podemos aprender com a Psicologia que cada sujeito é único, e lida com o mundo da sua maneira. Todavia, o “ser único” é formado em um entrelace com o coletivo. 

O que eu sou é único, a minha forma de sentir, amar, os meus medos, afetos, as minhas angústias são únicas, mas carregam em si algo que é histórico, social, cultural, e político. A nossa subjetividade é atravessada pelo mundo que nos cerca, e compreender isso é fundamental para o acolhimento. 

 

Somos constituídos em uma sociedade que nega historicamente a humanidade de corpos negros, indigenas e tanto outros. Acontece que os efeitos violentos da opressão racista impõem barreiras à ascensão econômico-social, mas extrapola isso, trazem feridas, sofrimento e desordens no campo psíquico. E isso tudo é silenciado na nossa cultura. 

 

Acontece que o racismo traz sofrimentos psíquicos e feridas que precisam ser olhadas, de forma mais atenta, crítica e humanizada. Separar saúde mental do contexto social pode levar a escuta patologizante, individualista que culpabiliza o sujeito negro por seu sofrimento. Atualmente, vemos um movimento crescente de debates que relacionam a Psicologia às questões raciais, que têm evidenciado lacunas na formação e na atuação dos profissionais da Psicologia frente a algumas demandas. 

 

Mas, ainda ficam os questionamentos: Os profissionais do campo da Psicologia estão preparados para acolher uma mãe que teve seu filho adolescente assassinado por um policial? Ou uma mulher que sofreu violência obstétrica devido a premissas racistas que dizem que o corpo negro é mais forte? Ou um trabalhador que sofreu violência policial em uma blitz porque é dono de um carro mais caro? Uma criança que escuta diariamente da professora que seu cabelo é ruim/duro? Ou uma médica que teve seu atendimento questionado por pacientes?  Essas situações podem desencadear crises psicológicas e podem demandar acolhimento emergencial. 

 

O acolhimento da pessoa vítima do racismo é essencial para elaboração da violência sofrida. O falar e ter sua dor escutada pode possibilitar alívio das emoções, da ansiedade, agitação e outros sinais e sintomas. A psicoeducação é uma intervenção que também pode ser utilizada nessas situações, o profissional pode compartilhar dados históricos, leituras, filmes, direitos, etc., para que o sujeito possa nomear a violência sofrida e reconhecer os seus direitos.

 

O acolhimento é sim direcionado aquele sujeito único, a sua dor, suas emoções, no entanto, é importante sempre compreender que esse sofrimento é causado pela ideologia dominante que é racista. 

Autora: 

Pabliny Marques de Aquino | Psicóloga – CRP 09/15511

Compartilhe