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20 de fevereiro de 2018
A difícil arte de ser mulher após abuso sexual ou um estupro

Se você já teve uma sensação estranha ao tocar sua companheira, como se ela não estivesse gostando ou indiferente a você, certo nervosismo ou passividade no ato sexual, com uma pressa para que aquilo acabe logo ou que a apatia tome conta, como se ela se transportasse para um mundo paralelo. Este texto é para você homem, mulher que esta vivenciando ou já vivenciou esta condição ou que já se relacionou ou que ainda irá se relacionar com alguém que tenha passado por isto.  Darei voz às mulheres neste texto, mas isso não significa que não tenha homens vivenciando o que relatarei aqui. Entendo que o tema abuso sexual ou estupro seja forte, mas acredito que precisamos abrir o debate, não podemos colocar “embaixo do tapete” ou simplesmente fingir que nada aconteceu.

 São muitas as marcas psicológicas que o abuso/ estupro deixa em suas vitimas, seja em crianças, adolescentes ou em adultos. Como terapeuta de casais ouço às vezes relatos como: “O toque dele me incomoda, mas não quer dizer que não goste dele, mas não consigo relaxar, é como se ele fosse me violentar ou me machucar, mas não posso dizer isso a ele, pois tenho medo que ele pense outra coisa, às vezes aceito, fingo, mas fico destruída ao final” (sic). Há também relatos dos esposos que dizem não entender o comportamento das esposas, e acabam por se sentirem diminuídos na sua sexualidade, às vezes por tirarem conclusões sem ao menos checar ou conseguir dialogar com a esposa.  Ou mesmo na psicoterapia individual de mulheres que não se sentem MULHERES, como se essa qualidade tivesse sido retirada, não se permitem, ser tocadas, amadas ou simplesmente desejadas. Algumas se escondem debaixo de camadas de roupas ou camadas de gordura (como forma de proteção) outras vivem representando papeis, fingem ser algo que não condiz com o que sentem, e isso causa tantos “estragos” emocionais ou mesmos desenvolvem doenças psicossomáticas, como alergias, refluxos, gastrites e tantas outras.

Em alguns casos é como se o feminino não existisse, está adormecida, sua energia esta voltada para o trabalho, estudos, ocupam sua mente de muitos compromissos para não entrarem em contato com suas dores, porque o fato de dar voz ao seu lado feminino, de alguma forma, traz todo o sofrimento a tona. Outras se isolam socialmente, não desenvolvem habilidade social, são agressivas na forma de falar e agir, uma forma de se defender, como se o mundo estivesse a postos para machuca-las novamente. Confiar em alguém é uma arte que demora a ser concebida na mente desta mulher, então se você esta se relacionando com uma pessoa que tenha passado por isso, tenha paciência, seja empático e disponível, valerá a pena ao final. Há também aquelas que desenvolvem uma “Paranoica” com o cuidado com o corpo ou desleixo total ou mesmo as que buscam por relacionamentos abusivos, como se quisessem reparar o erro que fizeram a ela, numa busca de provar que conseguem passar pela situação de violência.

Enfim, são muitas as marcas que ficam gravadas, destaquei algumas aqui no texto, mas o intuito maior não é focar na dor, o proposito desta discussão é de fazer um convite a estas mulheres para que possam ser senhoras de suas vidas, reescrever novas páginas no livro da vida . Temos o hábito de colecionar dor não é mesmo? E que tal se hoje você se permitir uma experiência nova, quero te convidar a fazer a experiência de reciclar toda essa dor, transformar através da arte do falar, em algo que seja benéfico e não maléfico. Que tal ter uma conversa franca consigo mesma ou com seu companheiro, se não consegue, busque ajuda de um profissional da psicologia, que saberá melhor orientar e direcionar o seu caminhar, sem que isso venha lhe trazer mais sofrimento. Porque o engolir, não falar o que sente, ou o pensamento de que é melhor “engolir”, só aumentam as cicatrizes. Pare e pense quantas palavras estão sendo silenciadas ou quantos sentimentos estão sendo acumulados dentro de você? São lixos emocionais que estão te sufocando, traumas que não esta deixando ir. Assim como a ostra que após ser ferida, nos presenteia com preciosas pérolas, nos também podemos pegar essa dor, essa lágrima e transformar em joiás preciosas em nossa alma, em nossa vivência. Entenda que sua história não será deletada, mas resignificada, você pode construir uma nova história, poderá ir mais além no livro da sua vida ou prefere ficar estacionada no índice e perder a oportunidade de ler o final desta história?

Costumo fazer uma analogia, em que a (o) psicóloga (o) é o oleira (o) e as pessoas são o barro, muitas chegam na forma de pó, secas, sem perspectivas , outras endurecidas, como pedras, e outras mais na forma aquosa. Assim como o oleiro a (o) psicóloga (o) ira com todo cuidado, respeitando o espaço e as marcas que lhe são características, vai aos poucos preenchendo o que precisa ser preenchido, com toda delicadeza suaviza as marcas dolorosas e vai modelando até que uma linda, preciosa obra de arte se conclua, como peça única e especial.

 Pense sobre isso e se de alguma forma este texto tocou em você, saiba que a escolha/decisão esta em suas mãos, existem várias páginas em branco que precisão ser escritas, você topa a missão de escrevê-las?

 

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