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17 de agosto de 2021
A internet e seus incessantes cancelamentos

A internet se tornou uma ferramenta de trabalho para muitas pessoas não só durante esse tempo sombrio que estamos vivenciando, mas até antes disso, e sempre me faço uma pergunta que ainda hoje não sei se serei clara ao responder: “Até onde a opinião dos outros sobre o seu trabalho ou qualquer outra área da nossa vida exposta online nos faz crescer e melhorar?”.

Ultimamente me vejo pensando muito sobre isso pois meu trabalho também me fez adentrar de uma forma mais profunda na internet e é claro que toda opinião que nos faça crescer e evoluir é bem-vinda, mas adentrar nesse local me fez perceber que as pessoas (no geral), usam das suas “opiniões” para ofender e atacar e depois dizer que o livre arbítrio está aí para que exponham essas ideias, mas é aí que entra a pergunta que fiz ao começo do texto e eis aqui uma pergunta (que particularmente também me faço para responder à anterior) que volto como resposta: “Se sua “opinião” não vai me fazer crescer e/ou melhorar e sim me ofender, por que ela está sendo exposta quando não foi requisitada?”.

Em todos os meus anos utilizando essa ferramenta como forma de compartilhar minha vida pessoal e agora o meu trabalho me deparei com situações, que não necessariamente foram vivenciadas por mim, mas que me deixaram extremamente incomodada como ofensa e maldade são, ainda hoje, chamadas de “opinião” para que possam ser expostas livremente sem se pensar no outro e em como isso será absorvido.

O cancelamento é uma das pautas que estamos vendo muito em todas as redes sociais, seja para criticar uma pessoa que realmente fez coisas absurdas e deve pagar por isso (não na internet, mas na justiça) ou para criticar uma pessoa por simplesmente estar dizendo que não gosta/concorda com certas coisas ou fazer seu trabalho e viver sua vida. E era exatamente aqui que eu queria chegar com esse texto, esse vício incessante de cancelar tudo e todos que não estão fazendo ou falando as coisas que todos concordem.

O livre arbítrio não é simplesmente poder usar sua opinião como bem quiser mas entender que se sua opinião vai ofender outras pessoas ela não precisa ser dita, pois a partir do momento que vira ofensa, não é opinião, se torna ataque e atacar as pessoas realmente vai ajudar elas a crescerem e evoluírem? Eu creio que não.

Penso que “cancelar” pessoas não é o papel dos chamados fiscais da internet, mas já que querem que a pessoa mude ou cresça, talvez não seria melhor explicar de forma construtiva ao invés de destrutiva? Até porque, quem somos nós para cancelar alguém na internet onde também podemos ser cancelados a qualquer momento por simplesmente gostar de uma coisa que outras pessoas não gostam? E como prejudicar a saúde mental de outra pessoa faria com que ela melhorasse?

Deixo então essas questões para que possamos refletir se realmente estamos opinando construtivamente sobre algo ou alguém ou se estamos simplesmente ofendendo e atacando gratuitamente alguém e prejudicando sua saúde mental só para “opinar” livremente onde ninguém nos chamou.

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Autora: ANA CAROLINA BARROS DA ROCHA | Psicóloga – CRP 09/15052

Bacharel em Psicologia pela PUC-GO e pós-graduanda em Psicanálise e Educação (UCAM). Formação continuada na Escola Brasileira de Psicanálise (EBP-AMP). Experiência clínica como estagiária do CEPSI, com crianças (individual e em forma de cartel), adolescentes, adultos e idosos com ênfase em psicanálise nas modalidades presencial e online. Tem como diferencial pesquisa voltada para a saúde de pessoas LGBTQIA+, está sempre envolvida na elaboração de projetos, participando de congressos e estudos que envolvem a psicanálise de orientação lacaniana.

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